Publicado em 28 de fevereiro de 2021 às 14:49
- Atualizado há 5 anos
O Brasil encerrou 2020 com a pior média de desemprego da história. Ainda viu outros indicadores baterem recordes negativos, como o desalento, a população ocupada e os subutilizados. Os dados do emprego no país superam até os anos isolados da mais longa recessão econômica, que durou entre 2014-16. >
Segundo dados do IBGE, o desemprego médio atingiu 13,4 milhões de pessoas em 2020, ano do início da pandemia da Covid-19. A taxa de desocupação ficou em 13,5%. O percentual é o maior em toda a série histórica da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), iniciada em 2012.>
A consultoria iDados, por meio de números de pesquisas atual e antigas do IBGE, construiu um levantamento que mostra que a taxa é a maior desde 1993.>
O número é até superior ao do pior momento do trabalho no Brasil até então, em 2017, que pegou reflexos da recessão dos anos anteriores. Naquele ano, a taxa de desocupação havia sido recorde, de 12,7%, com 13,1 milhões de brasileiros em média desempregados.>
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A recessão de 2014-2016 durou 33 meses, de abril de 2014 a dezembro de 2016, segundo o Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos), órgão ligado ao FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) e formado por oito economistas de diversas instituições.>
Foi a mais longa entre as nove recessões datadas a partir de 1980 pelo comitê, superando as de 1989-1992 (30 meses) e 1981-1983 (28 meses). A décima começou no primeiro trimestre de 2020 e ainda não teve a data final fixada.>
A queda acumulada do PIB no período 2014-2016 foi de 8%, a segunda maior desde 1980, abaixo dos 8,5% de queda do PIB na recessão de 1981-1983, segundo dados das Contas Nacionais do IBGE.>
Os dados divulgados pelo IBGE contestam até o ministro Paulo Guedes, que no fim de janeiro comemorou os dados do Caged dizendo que o país conseguiu, mesmo com a retração na atividade, registrar saldo positivo de empregos em 2020.>
O ministro ressaltara que as recessões de 2015 e 2016 geraram demissões de 1,5 milhão e 1,3 milhão de pessoas, respectivamente. "De um lado, o auxílio emergencial fez a maior transferência direta de renda. E, de outro, o programa de empregos preservou 11 milhões de empregos.">
Dados do Caged mostraram que a geração líquida (contratações menos demissões) de 142.690 empregos com carteira assinada no ano passado não foi suficiente para repor aqueles perdidos durante a pandemia. O ano terminou positivo por influência das 342 mil vagas criadas nos dois primeiros meses do ano.>
Já a Pnad, que calcula também dados de trabalhos informais, sem carteira e por conta própria, aponta uma deterioração que atingiu o emprego de mais de 51 milhões de brasileiros durante a pandemia.>
No total, além dos 13,4 milhões de desempregados (o IBGE só considera assim quem busca ocupação), o país teve mais 5,5 milhões de desalentados (que desistiram de procurar emprego por não encontrar) e 31,2 milhões de subutilizados (pessoas trabalhando menos do que gostariam).>
Todos os dados são recordes negativos e, somados, representam um aumento de mais de 5 milhões na comparação com 2019. Isso ainda contando que os dados são médias anuais, ou seja, englobam janeiro e fevereiro do ano passado, ainda sem pandemia, e metade de março, que recebeu a crise sanitária em meio à segunda metade do mês.>
Autor do levantamento da consultoria IDados, o economista Bruno Ottoni disse que o momento atual é atípico. Na comparação com a crise anterior, ele ressalta que na de 2014-16 a queda da atividade econômica afetou o mercado de trabalho, sem tanta intensidade quanto em 2020 pela pandemia, com as pessoas deixando de procurar emprego.>
"Na crise atual, nós já entramos em 2019 com o desemprego em 11,9%, o que é elevado, e ficou pior em 2020. Em cima desse patamar elevado, as proporções foram maiores do que olhando os anos isoladamente da recessão.">
Ele vislumbra um cenário ruim para este início de 2021, com muita gente tentando retornar ao mercado, medidas de estímulo fiscal retiradas e o setor privado em situação insuficiente para fazer a economia crescer sozinha.>
"É difícil manter pessoas em casa quando precisam sair para rua, o governo não vai conseguir controlar todo o mundo. A pessoa precisa sair para ganhar dinheiro e não passar fome. Se não conseguir trabalhar em comércio fechado, vai de motorista de Uber, motoqueiro de aplicativo, ambulante, alguma coisa para conseguir alguma renda", disse.>
O professor Écio Costa, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), lembrou que a crise está em curso, com a pandemia mais forte e a vacinação em ritmo lento, o que vai continuar repercutindo no setor de serviços.>
"Há uma trajetória de redução, mas talvez aconteça um repique, com os lockdowns ficando mais fortes", afirmou.>
A pesquisadora Maria Andreia Lameiras, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), disse que as duas crises (de 2014-16 e a atual) têm diferenças estruturais.>
Em primeiro lugar, o atual momento já vinha de uma situação econômica ruim, pois o país nem sequer havia se recuperado da recessão anterior. A retomada começava quando chegou a pandemia. Além disso, as medidas de distanciamento social dizimaram o setor de serviços, um dos principais empregadores.>
As crises anteriores foram econômicas, enquanto esta também tem a derrocada sanitária como agravante.>
"O turismo foi impactado em 2015/16 porque o poder de compra diminuiu, e as pessoas viajaram menos. Agora, as pessoas pararam de viajar completamente, tinha restrição de ir e vir, todos com medo do contágio.">
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