Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto, povoou de inteligência e humor a nossa transviada juventude. Criou personagens que carregavam nas veias a sabedoria, a boa malandragem, e outras milongas mais. Ao mesmo tempo em que Fernando Sabino trazia a fina flor do texto e o amor encadernado, Paulo Mendes Campos não ficava atrás com sua lógica rica e veloz e – last but not least – Carlos Drummond de Andrade era o rei da cocada preta.
E as meninas? Diná Siqueira Cavalcante, Cecília Meirelles, Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Adélia Prado, e poucas mais, infelizmente. A turma do Pasquim vinha com Millôr Fernandes, Sérgio Jaguaribe, o Jaguar, Zélio, Ziraldo, Nelson Motta, Paulo Francis… Enfim, duas publicações fechavam o cordão: “O livro de Cabeceira do Homem, e “O livro de Cabeceira da Mulher”. Não havia quem não lesse.
Falava-se português no Brasil, as leis eram legíveis ou decifráveis, apesar do analfabetismo ser o mesmo de agora. Havia importantes escribas, até nos Três Poderes da República.
Daí, deu-se a melódia.
A qualidade e a capacidade de comunicação entre todos no Brasil foi pro brejo. Cada grupo social passou a falar de um jeito, entender de outro, e os bem aventurados socialmente só notavam o povaréu no carnaval, e olhe lá.
Além disso, só se fala de dor e tristeza nas mais lindas músicas brasileiras, dizia Tom Jobim, exceto dele próprio, por exemplo em “Garota de Ipanema” - “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça”… As demais são lamentos. Lindas, mas independente da moda.
Hoje, a autoproclamada língua especializada, abunda.
Parece que uma língua especial é montada para não ser entendida nem pelos inventores. Quando quero prestar atenção nas coisas do judiciário me dá até desânimo.
Tive um colega no curso de Medicina, o Delta Madureira, especialista em falar difícil. Um dia perguntei a ele o que era Data Venia. Explicou.
Há cerca de um mês, abrindo dicionários de significados e significantes, que não consigo entender, nem meus doutos amigos, como, por exemplo, alguém ou algo vai depor em uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e não é obrigado a falar a verdade. Exatamente porque vai incriminá-lo. Ele, na verdade, vai lá mostrar que não existe no pedaço lei coerente e ensinar as criancinhas a mentir, pelo menos essa é minha ideia. E acho que a da senhora aí, sentada na poltrona, também.
Essa nem o Delta consegue me explicar. Deve ser uma dessas leis de duplo, triplo, quádruplo sentido, e quantos mais forem necessários. Obedecem apenas os seus criadores mandatários.
Existe uma determinação na carreira concursada dos médicos federais que reza o seguinte: no lugar do reajuste quinquenal obrigatório, para diminuir o impacto da desde sempre inflação, em seu lugar pagam um certo “Abono de Incentivo à Permanência”, que corresponde a um um valor maior do que o já pequenino salário. Um absurdo.
Incentivar com gorjetas o salário principal é incompreensível, o concursado já é obrigado a cumprir a permanência sem nenhum incentivo. Burrice? Não, safadeza. Ao aposentar-se, o incentivo de araque vai embora, Vai incentivar o diabo que o carregue.
Os médicos federais estão nessa gaiola de loucos desde sempre, e pelo risco e dedicação, principalmente durante este pandemônio, só recebem palminhas. A senhora, dê uma conferida na exorbitância do salário dos bacanas nos poderes públicos, a maioria nem concurso faz. E os penduricalhos, como auxílio moradia, auxílio transporte, auxílio isso, auxílio aquilo, coitadinhos. Um médico ao final da batalha, em média 37 anos, descontados todos os farelinhos, recebe, hoje, um salário que eu tenho até vergonha de confessar.
Reclamação, nem ao bispo.
Essas CPIs para quem tem memória, é o seguinte tia Cecy: tá todo mundo do mesmo lado sempre: metade levanta a bola e metade corta, revezadamente. E fingem que estão brigando e zangados uns com os outros.
E nós, o povo, somos obrigados a votar, a maioria sem compreender uma única sílaba da falação dos nossos ditos candidatos.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, está cheirando a imagem de Santo Agostinho