Para se eleger em 2018, Jair Bolsonaro contou e capitalizou algumas mentiras. Foram promessas e expectativas criadas por ele a respeito de sua Presidência, fundamentais para sua vitória eleitoral, mas que não sobreviveram ao tempo e ao terrível choque de realidade do que é o seu governo de verdade. Neste domingo, começamos a listar e explicar as sete mentiras capitais de Bolsonaro. As duas primeiras (“ser um liberal” e “representar a ordem”) foram expostas aqui. Nesta coluna, dando prosseguimento à nossa série em três partes, apresentamos a terceira e a quarta: a fantasia de que ele faria um governo “sem viés ideológico” e a de que ele seria “completamente diferente do PT”:
3) ELE FARIA UM GOVERNO "SEM VIÉS IDEOLÓGICO"
Poucas bravatas de Bolsonaro em 2018 foram tão grandes como a de que ele faria um governo “sem viés ideológico”, sobretudo na política externa, estabelecendo parcerias comerciais e diplomáticas sem levar em conta esse critério. Tal assertiva não resistiu aos primeiros dias de governo. O presidente parece um personagem retirado de algum filme B dos tempos da Guerra Fria. É um capitão que vive metido em uma contínua guerra ideológica pessoal. E seu governo está a serviço dessa guerra, mesmo quando isso contraria o interesse maior da população (exemplo crasso: a vacinação contra a Covid-19).
Enxergando o mundo em preto e branco, sem nuances, o presidente coloca tudo em termos de luta da direita contra a esquerda e toma as suas decisões de governo e de Estado com base na necessidade de combater seus inimigos ideológicos. O problema é que, na sua concepção, os inimigos “esquerdistas”, “comunistas” etc. estão infiltrados em toda parte.
Governadores, professores, artistas, jornalistas, cientistas, universidades, ambientalistas, ONGs, ativistas estrangeiros, os presidentes da Argentina, da Alemanha, da França etc., o Joe Biden, a OAB, a OMS, a ONU, o Papa, órgãos de imprensa nacionais e internacionais (mesmo aqueles considerados conservadores)… todos estariam envolvidos em uma grande conspiração da esquerda global contra ele. São seus inimigos, portanto; e, assim, na sua cabeça, inimigos da nação, já que ele pensa confundir-se com ela. Quem sabe governar, governa. Quem não sabe, procura pretextos e culpados.
Levando isso às raias do absurdo, Bolsonaro chegou a fazer campanha pessoal contra uma vacina que agora está salvando vidas no país (mas que poderia estar salvando muito mais), por ser ela fabricada por um laboratório da China, em parceria com um instituto de um Estado governado por um adversário político dele (aliás, um governador de direita).
Transposta concretamente para o Itamaraty, essa política tem feito estragos imemoriais na imagem e na economia do país. Enquanto o presidente mantém sua pregação obstinada contra o isolamento social, o país caminha a passos largos para o isolamento geopolítico voluntário no cenário mundial, por conta de uma alucinada política externa regida por um chanceler improvável, dotado de uma visão de mundo excêntrica, para dizer o mínimo.
Ernesto Araújo aposta em um nacionalismo obsoleto, que cheira a mofo, em detrimento do que ele mesmo classifica e condena como “globalismo”: a participação do país em foros internacionais e o desenvolvimento de estratégias conjuntas de enfrentamento aos problemas comuns das nações (como a pandemia e o aquecimento global) em organismos multilaterais. O atual comando do Itamaraty não acredita em nada disso.
Assim, de aspirante a protagonista diplomático nas últimas três décadas, o Brasil passou a pária na comunidade internacional, para não dizer motivo de chacota global, enquanto combatemos o “marxismo cultural” e a “doutrinação ideológica” que destrói a “tradição judaico-cristã ocidental”.
4) ELE SERIA COMPLETAMENTE DIFERENTE DO PT
Petismo e bolsonarismo são duas faces da mesma moeda. Sim, ideologicamente são opostos em quase tudo. Mas as duas correntes políticas convergem em alguns de seus alicerces: o messianismo e o culto quase místico que transforma seu conjunto de seguidores em arremedos de seitas religiosas dedicadas à adoração dos respectivos mitos. Estes seriam infalíveis, impecáveis e impolutos, como se estivessem acima de nós, seres humanos comuns, e como se personificassem todo o bem contra todo o mal, encarnado pelo inimigo político (Lula no caso de adoradores de Bolsonaro, e vice-versa).
Da mesma maneira que lulistas cultuam cegamente Lula, bolsonaristas cultuam cegamente Bolsonaro, o que é alimentado diligentemente pelo próprio presidente, como costuma fazer todo líder populista, seja ele de esquerda ou de direita. E assim, por mais que queiram negá-lo e se sintam até ofendidos com qualquer sugestão de semelhança, Bolsonaro e Lula se assemelham muito mais do que gostariam de admitir, na maneira como cultivam a própria popularidade e o apoio incondicional dentro dos respectivos nichos de 30% de convertidos que, presumivelmente, competem a cada um hoje em dia no universo populacional brasileiro.
Um é de esquerda, o outro é de direita, mas os métodos são muito parecidos. Exatamente como Lula, Bolsonaro é um grande populista. E, tal como o lulopetismo, é nesse populismo ultrapassado que se sustenta o bolsonarismo.