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Análise de discurso

Lula versus Bolsonaro: eleição 2022 começou para valer nesta quarta

Ex-presidente está inteiramente certo, mas completamente errado. Acerta em cheio nas críticas ao atual presidente, mas passa a borracha nos próprios erros e nas críticas necessárias ao PT

Publicado em 11 de Março de 2021 às 02:00

Públicado em 

11 mar 2021 às 02:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Bolsonaro x Lula
Bolsonaro x Lula Crédito: Amarildo
A campanha presidencial de 2022 começou nesta quarta-feira (10), de maneira inesperada e explosiva. O presidente Jair Bolsonaro está em campanha explícita pela reeleição praticamente desde que subiu a rampa do Palácio do Planalto. Já neste 10 de março, subiu ao palanque (ou ringue) aquele que será, potencialmente, seu principal oponente: agora em pleno gozo de seus direitos políticos e legalmente habilitado a disputar qualquer cargo eletivo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, um discurso em que, na prática, lançou sua candidatura à Presidência (sem o dizer com todas as letras), antecipando assim a deflagração de uma disputa eleitoral polarizada com o atual ocupante do cargo.
Depois de meia hora criticando a cobertura jornalística sobre os seus processos criminais e “ensinando” a imprensa a cumprir o seu papel, Lula passou quase uma hora criticando severamente o governo Bolsonaro. Acertou em cheio nessa parte: foram críticas pertinentes, agudas e, no mérito, corretas. Estava inspirado e afiado. E explicitou de maneira contundente o que a oposição inteira a Bolsonaro até agora não havia conseguido dizer com tamanha clareza e ênfase: “Este país não tem governo”. Não tem mesmo. “Bolsonaro não sabe o que é ser presidente da República”. Nunca o soube. Neste ponto, Lula está certo.
O ex-presidente também falou com propriedade quando explicou, tintim por tintim, o que Bolsonaro (ou qualquer chefe de Estado do planeta) deveria ter feito para enfrentar a pandemia, começando pela montagem de um gabinete de crise com ministros, secretários de Saúde, médicos e cientistas já em março do ano passado, para transmitir orientações semanais à nação inteira a partir de uma coordenação central. Foi quase um “Manual de Lula para Principiantes”. Ou “Como Governar em Tempos de Crise”, por Luiz Inácio Lula da Silva.
Da defesa veemente da vacinação e do respeito a medidas de isolamento social até a promessa de diálogo com todos os setores, passando pela condenação da política armamentista, Lula apresentou-se, em tudo, como o oposto do atual presidente. Assim como Bolsonaro em 2018 encarnou o antipetismo, Lula se apresenta agora como o símbolo do anti-Bolsonaro. E é desse antagonismo que Bolsonaro e seus seguidores se alimentam. Aliás, os dois lados se nutrem do ódio mútuo e da mútua rejeição.
Foi curioso ouvir Lula observar, em dado ponto do pronunciamento, a que ponto o fanatismo pode levar as pessoas – por evidente, em alusão aos apoiadores do atual presidente. Mas, invertendo-se os sinais, a observação também se aplica aos petistas mais ardorosos e à legião de seguidores que o cultuam como se fosse ele um semideus enviado à Terra para melhorar a vida dos brasileiros mais necessitados. O fanatismo cega de todos os lados e, assim como no caso de Bolsonaro, a adoração a Lula está fundada no culto à sua personalidade, como se fosse ele o verdadeiro “messias” do povo brasileiro.
Foi um pouco dessa aura que Lula buscou resgatar, ou recriar, por meio do seu discurso, enunciado em um palco tão simbólico para ele e o PT. Agora, mais que o clássico “nós contra eles”, a narrativa de Lula está baseada na comparação do “agora com o outrora”: o antes contra o depois; o presente versus o passado. E esse “passado”, no caso, seria personificado por ele. O “messias” da esquerda reatualiza a sua narrativa messiânica.
A estratégia eleitoral de Lula, inaugurada nesta quarta por ele, passa assim por reeditar um “passado glorioso” e idílico, que teria sido experimentado pelo povo brasileiro durante os seus anos na Presidência da República (2003-2010). Reeditá-lo na memória afetiva dos cidadãos e cidadãs brasileiros que hoje passam por extremas dificuldades em seu dia a dia, decorrentes do flagelo da pandemia e da situação econômica gravíssima atravessada pelo país (a qual afeta sobremaneira as pessoas de mais baixa renda).
A síntese do discurso do ex-presidente poderia ser: “Sua vida hoje está horrível, não está? O país está péssimo, não está? Pois é. Você lembra como era comigo? Prosperidade, crescimento econômico, distribuição de riquezas, geração de emprego e renda. Você quer isso de volta? Pois então venha comigo”.
Lula, assim, busca agora se reconectar com a grande massa da população brasileira, falando diretamente aos ouvidos daquele eleitor que talvez até tenha votado no PT num passado recente e se distanciou do partido (quiçá na direção de Bolsonaro), mas que ainda nutre simpatia por sua figura carismática de “pai dos pobres”.

OS PROBLEMAS DO DISCURSO DE LULA

Evidentemente, durante os anos de governo Lula, houve conquistas sociais importantes. E é impossível negar o drama social e econômico vivido pelo país na atualidade, sob o desgoverno Bolsonaro. A questão é que a narrativa construída por Lula é extremamente seletiva, conveniente e benevolente com o PT e consigo mesmo. Tem, premeditadamente, um lapso temporal importantíssimo. Salta direto de 2010 para 2018.
Lula ignora o flagelo legado por seu partido nos últimos anos em que o PT esteve no poder. Em sua narrativa não cabe a maior recessão econômica da história do país, vivida entre 2014 e 2016, em decorrência das políticas econômicas e fiscais desastrosas implementadas pela sucessora escolhida a dedo por ele (por sinal, praticamente ignorada no discurso desta quarta-feira).
Não há espaço, tampouco, para a corrupção sistêmica e estrutural mantida pelo PT e por partidos aliados durante seu governo e o de Dilma, na Petrobras e em outros espaços da máquina pública federal, como método regular de irrigação de campanhas com doações ou propinas pagas por grandes empresas (caixa um ou caixa dois), tendo por finalidade última a perpetuação do mesmo grupo no poder – sem contar o enriquecimento ilícito de vários agentes políticos e empresários. Não têm espaço os Delúbios, os Vaccaris, os Duques, os Santanas, os Delcídios, os Paloccis, os Dirceus, os Pinheiros nem os Odebrechts...
Lula, em suma, acerta nas críticas a Bolsonaro, mas “passa por cima” de todas as críticas cabíveis ao PT, ignorando todos os erros do partido e dele mesmo. Sumária e descaradamente.

“INOCENTADO”? COMO ASSIM?!?

É emblemático, ainda, que o ex-presidente tenha o tempo inteiro tratado a decisão do ministro Edson Fachin de anular suas condenações na Lava Jato como um “atestado de inocência”, o que tecnicamente não está certo. Mas é assim que Lula agora, espertamente, apresenta-se à população: como um injustiçado, perseguido por Sergio Moro e agora “inocentado” pela Justiça. As duas primeiras partes são passíveis de discussão. Mas, a rigor, Lula não foi absolvido.

A AGENDA ESQUERDISTA

Em seu pronunciamento, também visando estabelecer um contraponto claríssimo com Bolsonaro, Lula relançou sua plataforma essencialmente de esquerda, baseada no tripé “distribuição de renda, emprego e renda”. Mais de uma vez, fez referência depreciativa ao “deus mercado”. E, ao falar da Petrobras, recuperou a sua agenda estatizante e intervencionista, dizendo que a estatal não pode atrelar os preços dos combustíveis ao mercado internacional e às oscilações do câmbio, já que o Brasil não deveria importar petróleo. Nesse ponto, por mais que queira distanciar-se de Bolsonaro, ele e o atual presidente se encontram. Não só nesse, por sinal
Ao mesmo tempo, Lula fez acenos importantes ao centro político e social, ao dizer, por exemplo, que não é um “radical” e que pretende conversar com todos, incluindo representantes do meio empresarial.

CONCLUSÃO

A campanha eleitoral foi deflagrada. E uma bomba-relógio, ativada.
Vai explodir em 2022.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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