Antes, durante e depois de sua eleição em 2018, o presidente Jair Bolsonaro produziu algumas bravatas. Nenhuma delas se compara à de que, uma vez no Palácio do Planalto, faria um governo “sem viés ideológico”. Desde o primeiro pronunciamento após a confirmação de sua vitória, em outubro de 2018, Bolsonaro não desceu do palanque, não abaixou as armas nem descalçou o coturno usado por militares em campos de batalha. E, de maneira quase obsessiva, empenha-se pessoalmente em transformar cada pauta e cada ato em uma guerra político-ideológica que não faz o menor sentido e não favorece a ninguém – talvez a ele mesmo, mas certamente não à população.
O mais recente e infeliz exemplo disso foi a manifestação do presidente, em sua conta oficial no Facebook, na manhã desta terça-feira (10), sobre a notícia de que a Anvisa determinou a suspensão dos estudos clínicos no Instituto Butantan (do governo do Estado de São Paulo) para desenvolvimento da vacina CoronaVac, do laboratório chinês Sinovac, contra o novo coronavírus, devido a um “efeito adverso grave” em um voluntário que, segundo o próprio instituto, não guarda relação alguma com a vacina.
Por qualquer ângulo que se analise, trata-se de uma notícia triste para a população brasileira, ansiosa pelo desenvolvimento mais célere possível de uma vacina eficaz e segura que aplaque a angústia e a dor de incontáveis famílias – pouco importa de onde ela venha ou quem traga a boa-nova. Betinho dizia que “quem tem fome tem pressa”. Pressa também possui quem está perdendo vidas. Qualquer percalço que atrase as pesquisas médicas de qualquer origem não é motivo de júbilo, muito menos de celebração. Mas o líder da nação parece discordar.
Numa briga que não é da população, Bolsonaro não se contentou em comemorar o contratempo no desenvolvimento da vacina em parceria com o Butantan. Sem provas (como de praxe), associou o imunizante a “morte, invalidez e anomalia”. E chegou ao cúmulo de transformar em um joguinho pessoal, do qual se considera o “ganhador”, uma questão que na verdade é literalmente de vida ou morte para milhões de compatriotas e que portanto deveria ser tratada como prioridade máxima do Estado brasileiro:
“Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”, vibrou, na 3ª pessoa, o próprio presidente da República, que se opõe pessoalmente à “vacina chinesa”, ou “do João Doria”, como considera a Sinovac.
Expressar tamanha indiferença ao sofrimento de sua própria gente vai contra a ideia de “patriotismo” repetida pelo próprio Bolsonaro. Que patriotismo é esse que põe sempre em primeiro plano uma disputa político-ideológica e que despreza a dor alheia? Onde está o “Brasil acima de tudo”?
Com essa afirmação, o presidente só reforça que, para ele, a pandemia do novo coronavírus é, acima de tudo, uma questão de disputa pessoal com seus adversários políticos. Uma disputa para ver quem ganha mais. E, como autoproclamado “ganhador”, é ele quem demonstra se julgar acima de todos.
Assim, tal como fez e faz em relação a tantos outros temas (o desmatamento, a educação etc.), Bolsonaro leva ao extremo a politização do debate sobre vacinas contra o novo coronavírus, conferindo vieses ideológicos e xenofóbicos a uma discussão que deveria se ater ao campo médico-científico, como se essa ou aquela vacina fosse propriedade exclusiva de determinado país, de determinado governante ou até de determinado partido político. Está errado.
O que Bolsonaro não entendeu é que ninguém ganha com esse recuo nos estudos do Butantan, muito menos com essa briga política. Não há ganhadores nessa história. Todos perdem com essa pandemia. Todos estamos perdendo, literalmente, vidas e entes queridos. E perdemos mais ainda com a demora na chegada da vacina, com essa falta de união e com essa briguinha infantil, de ginásio, que só atrasa a chegada de notícias positivas.
Como ele mesmo trata de provar mais uma vez, indiferente às perdas materiais e humanas do próprio povo que o elegeu, Bolsonaro não tem o menor pudor em explorar uma tragédia humanitária em benefício pessoal, para colher dividendos políticos. Indecorosamente, utiliza até a Covid-19, a dor e o sofrimento de milhões de brasileiros para promover uma incessante disputa ideológica com fins eleitorais, antecipando a campanha presidencial de 2022 e mantendo-se fixamente em um palanque do qual, na verdade, jamais se retirou.
Sua postura belicista é inarredável. Seu discurso, inenarrável. Palavras não traduzem a insensibilidade e a falta de empatia com o outro, contidas em manifestações oficiais como a desta terça-feira.
Dizer que “desta vez ele foi longe demais” seria chover no molhado. Eu mesmo já escrevi isso aqui anteriormente. Amanhã essa afirmação corre o risco de caducar de novo. Em se tratando de Bolsonaro, não há limite do absurdo, do inconcebível e do inaceitável em um chefe de Estado que não possa ser superado no dia seguinte por outro episódio ou “manifestação presidencial”.
Enquanto todos nós estamos perdendo, Bolsonaro está convencido de que “Bolsonaro vence mais uma vez”. O que “venceu”, sinceramente, no sentido de “expirar”, foi o prazo de validade dessas bravatas e dessa belicosidade por parte de um presidente que só semeia guerra em um país que anseia por paz, por saúde e pelo fim da pandemia, para poder voltar a viver em harmonia e tranquilidade.