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Lembranças

Das esquinas, das turmas e do brincar de Vitória

De vez em quando resolvo passear pela Ilha, buscando páginas felizes da nossa história que memorizo desde o dia em que minha família e eu chegamos para morar na Capital

Publicado em 15 de Junho de 2021 às 02:00

Públicado em 

15 jun 2021 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Criança jogando bola
Essa atual pandemia traiçoeira deixou a covarde, a desonesta e a incompetente cúpula governamental retirar esses direitos de nossos filhos e a liberdade que tivemos nas patotas de rua Crédito: jcomp/Freepik
De vez em quando resolvo passear pela Ilha, buscando páginas felizes da nossa história que memorizo desde o dia em que minha família e eu chegamos para morar em Vitória. Foi difícil conseguir uma casa ou apartamento para morar. Vitória já estava completa. Alugamos um táxi com um baiano dentro – ele na direção – a passear pelos bairros da cidade. Ficamos meses hospedados em um hotel.
Um dia, o Sr. Seadi nos alugou, sem papel nem nada, um apartamento na Praia do Canto. Ficamos muito tempo ali, depois passamos por Jucutuquara, Bairro de Lourdes, Praia do Suá, e, finalmente, Dona Mariucha resolveu comprar aí mesmo um definitivo, bem na rua João Capuchinho, no coração da liturgia do Suá com Judas, que acontecia todo sábado de Aleluia, na Semana Santa. Torta capixaba era direto no Restaurante São Pedro.
A turma ia a pé para a praia “do Aterro”, vulgo “Aterrão”, para a tradicional pelada. Não havia suficiente organização municipal das ruas, de modo que nos encontrávamos à noite na Rua do Pau Roliço, que recebeu este nome em homenagem a um toco caído na via, que servia de assento para todo mundo. Hoje é a eterna Avenida Leitão da Silva.
Tinha um time lá, o Juventus. Wolmar, Binha, Oswalnir, João Guerra... A meta guarnecida por Nenem Flores. O treino era no areial. O time de responsa, costumava ganhar. João Gordo, o técnico, e Grande Hudson, o presidente. Do outro lado do bairro, florescia o Hilal Futebol Clube, no qual jogavam os irmãos Lora, Hebe e acho que eu também.
Essa atual pandemia traiçoeira deixou a covarde, a desonesta e a incompetente cúpula governamental retirar esses direitos de nossos filhos e a liberdade que tivemos nas patotas de rua. Em cada esquina havia algo de prazer, geralmente em torno de um esporte. As pessoas conversavam muito, riam, contavam vantagens, eram felizes, independente de governo. Hoje, o desdém e a imperícia para reger um país está nos matando a todos aceleradamente. Essa gente não nos merece mesmo.
Em Jucutuquara, uma das esquinas abrigava o Time da Avenida: Leomar Barreto, Laurinho, Augusto Lamego, Sergio Manaus, Rogério Botechia, Jairinho, Landerico, além da nossa eterna musa, a mais eficiente da equipe: Maria Papa Fila, a primeira mulher presidente de um time de futebol de jovens.
Não se pode deixar de citar o “Time da Prefeitura”, vulgo Fluminensinho. A pelada-treino era realizada entre o Britz e a pracinha da prefeitura, bem no centro da cidade, e a bola era controlada sem cair. A “grama” era de paralelepípedo. Daí a maestria do Fluminensinho, controlar a bola no ar.
Preciso explicar para os meus tolerantes leitores que minha memória deixa escapar muita coisa e muitas vezes leio textos muito mais precisos que o meu a falar de capixabices. Isto é, tento passar para vocês o meu olhar encantado pela Ilha Delícia, segundo Carmélia Maria de Souza.
Encontro acolhido na estante textos brilhantes reunidos no livro “Colégio Estadual - 90 Anos Educando”, quando Vitor Buaiz era governador, assessorado por Euzi Morais, Bernadette Lyra e Jair de Brito. Os colaboradores eram a fina flor da literatura capixaba. Nesse pequeno espaço não dá para citar o nome de todos, mas é fácil encontrar, não sei onde, mas é. São 185 páginas de textos bem burilados e fotos preciosíssimas, digamos, da galera.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, olha com desdém.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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