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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

Estruturas linguística e comunicativa vivem preocupante declínio

Muitas são as razões para este fenômeno que ocorre hoje, sendo uma das mais evidentes a “urgência” (ou seria ansiedade?) no envio de mensagens de texto via aplicativos, como é o caso do WhatsApp

Publicado em 10/06/2021 às 02h00
Pessoas conversando
As consequências cognitivas ainda estão por ser avaliadas, afinal ainda estamos no meio deste processo. Crédito: rawpixel.com/Freepik

“Calvin: Não posso acreditar! Acabei de voltar pra escola e já tenho lições de casa! Eu tenho que escrever um parágrafo sobre o que fiz no verão! Um parágrafo inteiro! Eu nunca serei capaz de escrever tanto! Não é justo!

- Como tá ficando?

Haroldo: Não muito bom. O que você fez além de ver TV?” (“Calvin e Haroldo”, Bill Watterson)

A língua, ou melhor, a linguagem, seja ela em qual idioma for, português, inglês ou chinês, é a principal ferramenta de transformação que temos enquanto indivíduos. Em conjunto, cada indivíduo comporá um grupo social que, compartilhando da mesma língua, poderão comunicar-se entre si, projetando-se em mutações constantes capazes de melhorar as condições de vida tanto de modo coletivo, como também individualmente. Ou seja, trata-se de um processo em que todos saem ganhando.

Deste modo, o domínio da língua significa uma grande liberdade em seu sentido mais estrito. Num outro extremo, também se poderia dizer que nos sentimos aprisionados dentro do limite dela quando, por exemplo, não encontramos palavras para expressar algo. Se faltam palavras, é por que se trata de algo que ainda nem sequer existe ou por que não sabemos qual é a estrutura comunicativa a ser usada no que gostaríamos de dizer e não sabemos como? Se algo vem à mente e não sei como expressar, é por que não aprendi quais meios narrativos podem ser usados naquilo imaginado?

No âmbito das ideias é preciso, portanto, conhecer toda a extensão da língua, seus meandros, percorrê-la permanentemente, explorar seus bordos, até para saber quando se pode ou se deve ultrapassar suas fronteiras.

Neste sentido, para que a língua funcione do jeito correto, para que ela seja um marco comum assimilado e adotado de modo coletivo, é necessária a existência de um regramento que oriente e organize seu uso. Mas a língua é também dinâmica, de tal modo que suas regras sofrem alterações ao longo do tempo, mantendo-se, porém, sua essência.

Ainda que esteja à disposição de todos os indivíduos, sabe-se que a complexidade da língua só chega a uma parcela de indivíduos da coletividade, ficando grande parte das pessoas sem acesso à toda sua estrutura. Contudo, para aqueles que acabam excluídos do conhecimento pleno da sua língua, os obstáculos da interlocução são logo superados com muita criatividade. E aí vale da mímica às gírias, até chegarmos aos atuais emojis, os populares ideogramas usados por quase todo mundo hoje em dia.

O fato é que a linguagem gráfica também sempre fez parte da comunicação humana, e que tem no desenho, o técnico ou o artístico, por exemplo, modos e objetivos específicos para a difusão de ideias, conceitos, projetos.

O que importa, claro, é que entre dois indivíduos – um emissor e um receptor – se dê a transmissão de uma mensagem que possa ter o mesmo significado para ambos. E para isso é importante o código comum, as tais regras.

Não obstante, nas últimas décadas estamos vendo um inédito e preocupante empobrecimento nas estruturas linguística e comunicativa em todo o mundo, em todos os povos, em todos os níveis socioeconômicos. Cada vez se lê menos, cada vez se escreve pior. Trata-se de uma incrível contradição, afinal nunca se produziu tanto conteúdo para ser lido.

As consequências cognitivas ainda estão por ser avaliadas, afinal ainda estamos no meio deste processo, ou seja, só no futuro é que se saberá se o desenvolvimento intelectual do homem de fato estacionará, retrocederá ou, quem sabe, avançará, apesar de toda a preocupação que se tem no momento com tal questão.

Muitas são as razões para este fenômeno que ocorre hoje, sendo uma das mais evidentes a “urgência” (ou seria ansiedade?) no envio de mensagens de texto via aplicativos, como é o caso do WhatsApp.

E pensar que num passado recente acusava-se as histórias em quadrinhos como possíveis responsáveis pela decadência linguística dos seus leitores. É claro que não, pois basta ver como o mundo ficou mais complexo, crítico e divertido graças ao Quino e sua Mafalda, Will Eisner e o Spirit, Hugo Pratt e o Corto Maltese, Alan Moore e os Watchmen, entre tantos outros.

Mas será que o uso indiscriminado de abreviações vocabulares, principalmente por parte dos jovens, mas não só por eles, pode fazer com que tais indivíduos percam, num determinado momento de suas vidas, a capacidade de retomar o uso do vocábulo original? Como saber se "hj", "kd", "blz" ou até mesmo "aki" não forçarão o desaparecimento de "hoje", "cadê", "beleza" ou "aqui"?

Por enquanto, o que se sabe mesmo é que o declínio do nosso idioma está sendo patrocinado justamente por quem deveria ser seu guardião, pois quem é que está retirando recursos das universidades e anda dizendo por aí palavras como “imorrível”, “imbroxável” e “incomível”?

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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