Na última terça-feira (23), fomos surpreendidos com um pronunciamento em cadeia nacional de um presidente da República, com a narrativa de uma “liderança política” que nos levou a perguntar de onde ele era, de onde ele vinha, e qual era a sua identidade. Chamou atenção a postura de Jair Bolsonaro. Nós, da comunicação, sempre nos perguntamos: qual foi a estratégia?
Um fato que rodeia o presidente é que ele sempre gerencia todas as suas crises e atos tendo como termômetro as redes sociais e seu nicho político, recheado de empresários elitistas, banqueiros e afins. E nesses dias, as redes sociais começaram a avassalar críticas e perguntas a ele sobre o seu comportamento diante da pandemia, a partir da imagem do Brasil para o mundo.
Do mesmo modo, na última segunda-feira (22), o presidente recebeu uma carta assinada por 500 empresários, banqueiras, lideranças comerciais e econômicas, pedindo postura e expressando com veracidade apontamentos que clamam por gerência e comando do planalto em função do agravamento da pandemia.
Passadas 24h, surge um novo presidente, e aqui eu te convido a ver os detalhes. Chama a atenção alguns pontos do seu pronunciamento, e isso aconteceu nesse dia em que o Brasil passou de 3 mil mortos em 24 horas. Assim, o tom assumiu o viés de solidariedade (coisa nunca vista antes, levando em conta que ele sempre dizia: “o povo vai morrer mesmo, parece que só no Brasil que morre gente”). Depois, temos uma expressão de Bolsonaro inédita: ele mira as câmeras com um olhar sereno e preocupado.
Ele fala num tom de voz compassado (é seu costume falar gritando e, assim, gaguejar). Quase sempre, a câmera se fecha na expressão de Bolsonaro, foca no rosto para captar a expressão do presidente. Nessa narrativa, ele conversa com os pobres, vulneráveis, desempregados e quem está passando fome. Ele trata isso como um vírus e uma pandemia paralela. Nessa hora de câmera fechada nele, ele centra na vacina. Fala do Brasil como um dos países que mais imuniza, e cita a cifra dos 14 milhões de vacinados e das 32 milhões de doses de vacinas distribuídas.
Ele faz o que sempre renegou: “enaltece” institutos como Fiocruz, Covax e Butantan, presta conta de valores (que são questionáveis). E, claro, dedica 50% do seu pronunciamento para falar daquilo que ele sempre falou contra: das vacinas. Durante todo o seu pronunciamento, o termo vacina (nas suas conjugações) apareceu 11 vezes, para carimbar que 2021 será o ano da vacinação de todos os brasileiros. E se for para ir mais longe, é só olhar o look do presidente: a gravata amarela e camisa azulada, já dizem muito.
Parece que na noite de terça, embora algumas colocações sejam questionadas, nasce um novo presidente: preocupado, empenhado e destemido a enfrentar a pandemia. Agora, também nasce uma pergunta: até quando esse presidente vai durar? Para a televisão, ele foi com um texto pronto, preparado com uma linguagem própria, e esquematizado para “tranquilizar” os brasileiros. É preciso que esse novo presidente perdure, pois do contrário, Bolsonaro não passará de mais uma vez que se expôs ao espetáculo. De qualquer forma, a narrativa de comunicação equivale a um presidente que não temos, ou se preferir, não tínhamos.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta