O Brasil vive um dos seus momentos pontuais na história: a polarização política rodeada de artefatos e efeitos que perpassam pela comunicação e coloca desafios que vão da incompreensão à ameaças e afins. A cada dia que passa, vamos recebendo mais informações e assim vamos nos tornando humanamente incapazes de consumi-las. Automaticamente, vamos selecionando as notícias que compactuam com nosso jeito e nossa performance, e caímos na tentação de nos alimentar apenas das manchetes, e a partir delas tecer opiniões.
A polarização, no âmbito geral, está cercada de anticríticas e monitorada por olhares indiferentes, razão pela qual cresce a “insuportabilidade”, doença do século. Não suportamos mais os contrários, e nem diálogos com pensamentos opostos, e por aí vai. Na comunicação isso não é diferente, a teoria é a mesma.
Além de vivermos compactuados com a polarização, precisamos considerar que ela emerge dentro de um contexto informativo comandado por algoritmos (que ditam o que receberemos e consumiremos), e a velocidade da internet que atordoa com a multiplicidade de conteúdos produzidos faz com que o hábito da leitura integral de um conteúdo e de uma matéria sejam apequenados. E, por fim, somos liderados por uma persona política que coloca a mídia, a imprensa, e fontes de conteúdo, em xeque. Como sobreviver nesse cenário caótico e emblemático? Vamos lá!
Para sair do imbróglio, é preciso tomar consciência de três coisas. A primeira é que, na medida do possível, precisamos driblar os códigos da internet. E isso acontece a partir do momento que driblamos nossas convicções e passamos a curtir o diferente, consumir o antagônico e confrontar opiniões. Se continuamos a consumir sempre as mesmas crenças, sempre as mesmas verdades, não faremos o parto da bolha.
Segundo, urge a necessidade de disciplinar nosso ímpeto de querer ver tudo. Quando desejamos ver tudo, não vemos nada. Disciplinar é, portanto, colocar ordem na gente mesmo a partir daquilo que tende a contribuir com a construção da minha opinião. E, por fim, temos a liderança política que, quando pode, coloca diversas interrogações em alguns veículos de imprensa, a fim de que o público desacredite e desvalorize aquela fonte. É evidente que a atitude do presidente equivale aos seus incômodos com as críticas, com seu governo e com si próprio. Para essa causa, vale-nos apegar a uma máxima: questione quem questiona o questionamento.
Nesse emaranhado surge a principal provocação do dia de hoje: como comunicar e se informar na polarização? A comunicação precisa continuar a incomodar, questionar, informar e contribuir. Diante de um cenário tão alegórico e com um consumo tão focado em manchetes, logo, em informações abreviadas, cabe cada vez mais a nós comunicadores ter um olhar atento sobre isso a fim de que a missão de comunicar não seja amputada, mas ressignificada. A onda da polarização não tem data pra terminar, por isso, o desafio de informar precisa seguir surfando, do contrário todos nós nos afogaremos nessa onda.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta