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Polarização fracassou como modo de governo e exercício de poder

O eleitor já mostrou, nas eleições municipais, que não deseja viver em clima de confronto permanente, tampouco de instabilidade política e emocional de seus governantes

Publicado em 26/02/2021 às 02h00
Eleição de 2018 foi marcada por polarização ideológica
Eleição de 2018 foi marcada por polarização ideológica. Crédito: Amarildo

Estamos diante da política negativa, do abuso como instrumento e dos ataques como método. Nada de bom acontece quando se faz política dessa forma. Parece que nos últimos anos o Brasil esqueceu que a democracia precisa da construção de consensos, negociação e adversários que discordam, mas acima de tudo se respeitam. Ao enfrentar uma pandemia, precisamos também de união, gestão e conciliação.

O turbilhão que levou o petismo à lona trouxe também a emergência da construção de uma suposta "nova política", um claro movimento que precisava demonizar as antigas formas de acomodação de poder, classificadas de forma grosseira como "velha política". Fato é que o sentimento de renovação que chegou pelas urnas se impôs, abrindo espaço para novos nomes em detrimento de uma antiga classe desgastada pelo exercício do poder.

Fato é que, no poder, a nova política não deixou a campanha eleitoral de lado e passou a usar a tática da polarização como instrumento de governo e de exercício de comando parlamentar. Nada diferente do que seu líder, Jair Bolsonaro, fazia durante os 28 anos que ocupou uma cadeira na Câmara dos Deputados. Os resultados não poderiam ser piores. Ao invés de pacificar, confrontou. Ao invés de unir, afastou. Ao invés de convergir, antagonizou.

A guerra de narrativas se tornou mais importante do que a verdade e a obediência passou a ter mais valor do que a razão. Tempos estranhos estes que vivemos. Não é possível construir e debater, mas destruir e vencer a qualquer preço. Uma pós-verdade se impôs com as versões tendo mais poder que os fatos e a política da dissonância como método, sem propor nada de concreto.

Não tardaria para que a democracia saísse machucada desta insana dinâmica que tomou conta das relações políticas do país. Instituições atacadas, reputações dilaceradas e a liberdade agredida. Naturalizar a exceção, a violência e agressão, enaltecendo os erros mais graves de nossa História, aqueles dos quais mais nos envergonhamos, que cercearam direitos e calaram vozes tornou-se lugar comum. O Brasil não pode aceitar que lhe tirem suas maiores conquistas.

O eleitor já mostrou, nas eleições municipais, que não deseja viver em clima de confronto permanente, tampouco instabilidade política e emocional de seus governantes que acabam por atingir nossa normalidade econômica. O Brasil precisa e tende a voltar a razão, encontrando líderes que respeitem nossas instituições e conquistas democráticas, instrumentos sem os quais torna-se a vida em sociedade insustentável.

A polarização fracassou como modo de governo e instrumento de exercício de poder. Precisa dar lugar aos instrumentos da boa política, aquela forjada pelo consenso e a concertação. Não há caminho fora da política, aquela realizada com a cabeça e não com o fígado. Ao optar pelo racional, nos tornamos uma sociedade livre, aberta e fraterna, capaz de lutar contra os inimigos da democracia, travestidos de políticos, que hoje abalam os alicerces institucionais da república para implementar seus perigosos jogos de poder. A polarização tornou-se intolerável. A política negativa precisa encontrar seu fim.

O autor é cientista político, mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007), diretor-executivo do Interlegis no Senado Federal, coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília e ex-diretor da Apex-Brasil

* Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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