Duas imagens estão presentes diante de nossos olhos, nos últimos dias: uma de líderes mundiais unidos para combater a pandemia, e do outro, um Bolsonaro usando palanques, gritos, para guerrear com governadores e instituições. Além de um colapso na saúde, um colapso na moral, na ética, na política. Quem poderá nos defender? É anormal o que vive o Brasil nesses últimos momentos. Além de vivermos inconsolados com o drama das mortes que se multiplicam, ainda somos intimados a conviver com a insanidade de um presidente que não governa, mas passa o dia em “cabos de guerra”.
Basta colecionarmos suas falas e seus discursos, e depois, assistirmos. Não há uma narrativa que se sustente, aliás, todas se contradizem. E isso revela muito bem o que temos no Palácio do Planalto: uma cópia fidedigna de Pôncio Pilatos. Temos um presidente que não se cansa de lavar as mãos na bacia da incoerência, da arrogância e da mediocridade, mas nesse caso, ele não lava as mãos nas águas, mas no sangue dos milhares de brasileiros que morreram no país, vítimas da Covid-19.
Como se isso não bastasse, ele se atreve a “estimular que descubramos os nossos rostos, que tiremos a máscara de proteção, para receber o beijo da morte”, parafraseando Olga Curado.
Na concepção do governo, a culpa nunca é dele, mas do STF, dos governadores, dos prefeitos, de fulano e de ciclano. O que isso aponta? Ou melhor: para onde isso aponta? Qual o alvo do discurso do Bolsonaro?
Precisamos, e muito, de memória para recuperar o eixo da nossa reflexão de hoje. Bolsonaro veio como o “Messias da economia”, da honestidade, da política, mas tudo corre o risco de minar. A economia de Bolsonaro não decolou. Guedes vive um dia de cada vez apagando incêndios e tentando engatar, mas... Transferir a responsabilidade e sustentar a retórica de que a culpa é de fulano e de ciclano, é uma questão de sustentabilidade política e até de marketing, ou, se preferir, de diálogo com quem financiou/financia um presidente que parece ter conseguido jogar seu eleitorado contra tudo e contra todos.
No próximo ano, temos eleição. Os discursos já miram essa causa, pois sustentar o poder é uma questão de honra para o “Messias do Brasil”, do contrário, seus discursos macabros cairão pela terra da fantasia.
Lavar as mãos na bacia da desumanidade não corrobora com o combate à pandemia. Corremos o risco de assistir ao mundo vacinado, andando com o rosto livre das máscaras, enquanto nós permaneceremos numa epidemia provocada pelo vírus da indiferença de um presidente que se sente mais “preparado para ver caminhões do exército transportando corpos de vítimas do coronavírus” (como realça o ex-ministro Mandetta em seu livro, "Um paciente chamado Brasil"), do que um líder com coragem de acelerar processos e procedimentos para ver o povo imunizado, uma economia restabelecida e os brasileiros indo e vindo, consumindo, crescendo e progredindo. Nesta quinta, a pergunta que não quer calar é essa: no Brasil temos um “Messias” ou um Pôncio Pilatos?
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta