Imagino que, de alguma forma, muitos brasileiros vêm vivendo, ainda que inconscientes, uma espécie de luto quando veem o presidente Bolsonaro se manifestar e/ou agir. Mas, o que é luto? Não é só aquilo que vivemos quando alguém morre? Não. Luto é aquilo que vivemos e revivemos todas as vezes que perdemos.
E o luto vem acompanhado de 5 fases: a primeira é a negação, a segunda é a raiva, a terceira as barganhas ou negociações, a quarta é a depressão, e a quinta é a aceitação. Mas, o que perdemos depois que elegemos Bolsonaro? Poderíamos dizer que perdemos a esperança e a crença (que nos ousava o defender) como o presidente ideal.
Por isso, a perda geradora desse “luto” acarreta, em muitos brasileiros, a negação. São aqueles e aquelas que veem as incoerências, as declarações insanas que não condizem com seus valores, mas negam a todo tempo a realidade dele. Porque negar é uma forma de não significar a perda. Por isso, criam-se justificativas, fake news etc.
Outros já atravessaram essa fase e no momento estão enraivados. Acreditam, mas não acreditam. São aqueles que são incongruentes, que culminam em atitudes desagradáveis. Daí, ferem a imprensa que fala, ferem os líderes de opinião, ferem com a raiva, as ideias e explanações diferentes.
Há aqueles que se encontram na fase das barganhas. Esses querem a todo custo reverter o acontecido de alguma maneira. Por isso, fazem promessas, pactos, acreditando que a situação vai mudar. Outros já se encontram “depressivos”. Perceberam o drama, a perda, e se isolam do debate, e se abrem a partir do afastamento, a repensarem sobre os fatos e a realidade. Repensar.
Outros já atravessaram todas as fases, já aceitaram a perda e assimilaram a derrota. Nessa fase e nesse contexto, mora ou deve morar o desejo de refinar e/ou confirmar o ideal político que pode tornar o Brasil melhor, de fato. Quiçá todos os brasileiros cheguem nessa fase até 2022.
O luto dos brasileiros tem explicação. Vivemos uma nova eleição tendo do lado um governo de impeachment, depois de um vice que chegou perto da mesma experiência. Tudo que queríamos era a mudança daquele modelo de governo. Daí se apresenta o Bolsonaro, formatado do desejo dos brasileiros, e muitos se viram nesse ideal, mas hoje ele mostra que de fato “Ele não era ele”, era um "ele" formatado.
Mas tudo que não é em essência, se esvai. O problema é que temos de conviver com alguém incapaz de gerir a si mesmo, logo, seu desejo é gerir os outros ou fazer com que os outros façam aquilo que só ele acredita. O perigo é que nessa forma de ser gente, os ouvidos se fecham e a sensibilidade morre. Não é atoa que temos um presidente incapaz de ser solidário com Manaus, de ser solidário com as vítimas da Covid, de dirigir uma palavra menos ácida e árida.
Como todo luto, ele só passa à medida que existe aceitação. E só o superamos vivendo. É tempo de viver o luto e, se possível, de superá-lo até 2022, pois Bolsonaro não deu certo.