Não sei qual foi a sua reação ao ler o título da nossa reflexão de hoje. Talvez você possa reagir com uma pergunta, “O quê?" ou “sério isso?”, ou ainda “eu já sabia!”. Um estudo do Institute for Policy Studies e a Americans for Tax Fairness evidenciou que a riqueza dos 643 americanos mais ricos cresceu 29% desde meios de março, período em que o novo coronavírus proliferava pelo mundo e intimava famílias inteiras a ingressar na quarentena ou lockdown.
Desde então, vimos comércios trancados, economia paralisada e uma verdadeira explosão do desemprego, mas que nem fazia cócegas à saúde financeira dos multimilionários — pelo contrário. O balanço mostra que as fortunas avaliadas passaram de US$ 2,95 trilhões, em março, para US$ 3,8 trilhões, em setembro. Quem tiver olhos para ver isso veja!
Mas o que isso revela? Sempre soubemos que a desigualdade teve relevância no Brasil e no mundo. Por hora, a pandemia apenas evidenciou (ou, se preferir, tirou o curativo da ferida) a desigualdade, fazendo a música que ouvimos em sotaque nordestino fazer sentido: “O pobre cada vez fica mais pobre, o rico cada vez fica mais rico, e o motivo todo mundo já conhece: é que o de cima sobe e o de baixo desce”. Então, os bilionários ficaram mais ricos ainda e, do outro lado, uma quantia da população, que estava relativamente sob controle (embora sempre estivesse sob o risco de exclusão social padecendo sob o tormento da vulnerabilidade), ficou ainda mais pobre.
Uma outra pesquisa, realizada pela Oxfam britânica, também se encarregou de revelar que, ao mesmo tempo em que a economia mundial levava a um desmoronamento sem precedentes, “algumas” (preste atenção nessa palavra) das empresas mais valiosas do mundo registravam lucros estupendos. As 32 maiores multinacionais devem reunir US$ 109 bilhões de dólares a mais do que o lucro médio que tiveram nos últimos quatro anos.
A pergunta que não quer calar: mas quem foram os que tiveram vantagens na pandemia? Entre eles, estão os CEOs do Facebook, Mark Zuckerberg, da Microsoft, Bill Gattes, e da Tesla, Elon Musk, que viu sua fortuna aumentar 274%, conforme o relatório das entidades americanas. O dono da Amazon, Jeff Bezos, que já é o homem mais rico do mundo, ficou 65% ainda mais endinheirado durante a pandemia, favorecido pelo crescimento da sua plataforma em meio à quarentena.
O fato é que o mundo não é de alguns, e por isso, do outro lado da pirâmide temos 176 milhões de novos pobres que podem emergir da crise sanitária, conforme alerta da ONU. As Nações Unidas já asseguram que as medidas de proteção social tomadas até agora pelo mundo somam 496 bilhões, mas permanecem insuficientes e insignificantes.
O pior da pobreza gerada pela pandemia, adverte a ONU, ainda está por vir. Segundo o ranking da organização sobre o tema, em 2019 o Brasil era o sétimo país mais desigual do mundo e o segundo com maior concentração de renda: o 1% mais rico centraliza 28,3% de toda a riqueza do país. Onde vamos parar?
Urge uma legislação capaz de amenizar e suprimir a desigualdade. Enquanto uns se lambuzam com ricas iguarias, outros aguardam as migalhas que caem da mesa ou que vão para o lixo. O mundo não pode ser de alguns quando ele foi feito para todos. Os milionários precisam provocar programas sociais, o governo precisa agir, enquanto houver desigualdade de oportunidades, os pobres continuarão no barraco e os privilegiados, nos palácios. Mais uma tarefa de casa do coronavírus.