Chegamos a dezembro. É o fim de 2020, mas não o fim da pandemia. Cultivamos isso durante todo o ano na ilusão que a culpa era do “2020” e, logo que ele terminasse, a pandemia também iria cessar. Mas fomos apenas vocacionados à histeria dos signos e dos astros! Assim, também filosofamos por diversas vezes que a pandemia traria um novo normal, que até agora não chegou. Chegamos a dezembro com uma convicção: vivemos um “novo normal” forçados, obrigados, pois na primeira oportunidade de escapar para o normal de antes, vamos correndo.
O que isso tudo revela? Talvez isso mostre a nossa resistência à mudança e, por outro lado, a nossa carência humana que não suporta viver apenas do on-line, mas precisa da presença, que não suporta enfrentar um luto sem ritos, pois precisa do simbólico, não damos conta de viver isolados, precisamos do outro. Foram muitos os pensamentos e reflexões que tivemos no colo e na frente dos olhos durante este ano. Nos encantamos com cada linha, mas não demos conta de transformar o conto em fato, não demos conta! Assumir essa condição talvez seja um passo para ir na direção desse “novo normal”, mas uma coisa é verdade: como somos dependentes.
O que motivou esse artigo de hoje foi minha subida a uma ladeira aqui da cidade. Enquanto eu subia, escutei um grupo de pessoas conversando (sem distanciamento, mas estavam de máscara, pelo menos) sobre a impaciência com a pandemia: “não aguento mais isso”, “não aguento mais aquilo”, “não aguento, não aguento”. Aqui já deu para perceber que ouvir expressões como “fique em casa”, “use máscara” e “evite aglomeração” chega rasgando aos tímpanos desse grupo, então, fazer revelia é a estratégia para não digerir as restrições. Mas as mesmas pessoas também diziam: “falaram tanto que depois da pandemia as pessoas iriam mudar, eu estou achando que estão piores”, soltou uma mulher. Continuei a subida rindo por dentro e sendo ousado no pensar.
Mas é isso. Essa tal pessoa que disse que está achando que as pessoas estão piores que antes, no fundo, ela está falando dela mesma, ou melhor, a partir dela mesma, porque ela não se aguenta mais. Antes ela se suportava porque se distraía com outros ciclos, agora ela fica mais com ela mesma, e por isso ela tem se percebido “pior” do que antes. A angústia, os traumas, os incômodos são a sua companhia.
A pergunta que talvez nós poderíamos nos fazer é exatamente essa: por que não fomos capazes de sermos autores de um novo normal? A resposta é muito, mas muito prática, ao meu ver: simplesmente porque que não soubemos viver este novo momento, aliás estávamos/estamos numa pandemia, com a cabeça lá fora, no mundo de antes.
Eu ouvia do Frei Betto, esses dias, um relato do seu tempo de ditadura, quando ficou preso. Ele disse que, no dia em que entrou na cadeia, ele buscou viver as grades e por isso saiu da cadeia melhor do que quando entrou, mas muitos dos seus companheiros de cela saíram piores, porque estavam na cadeia, mas com a cabeça lá fora.
A pandemia vai passar, e corre o risco de ela passar e nós não a termos vivido. Por isso, se não vivermos a cela do isolamento, as grades das restrições, o tempo de exílio da máscara, faremos jus à fala da mulher que eu ouvia quando subia a ladeira: sairemos piores do que entramos desta pandemia. Simplesmente porque não gestamos, mas abortamos “um novo normal”, um novo jeito de ser gente.