Há três casas no Brasil que estão dando o que falar nesta semana. As primeiras são as casas legislativas – a da Câmera Federal e a do Senado. A outra é a casa do "Big Brother Brasil". O interessante é que as três casas optaram pelo cancelamento. Essa palavra ganhou evidência esses dias, a partir de um conflito no reality show da Globo, envolvendo Karol Conká e Lucas Penteado.
Hoje já se fala que Karol está sendo cancelada por cerca de 100 mil pessoas diariamente nas redes sociais, ou seja, estão deixando de segui-la porque ela fez a opção de cancelar o seu colega de reality por atitudes que despertaram o que existe de pior nela. Já nas casas legislativas, o cancelamento se deu na praxe política: quem não votou nos candidatos do presidente, também foi cancelado de comissões, de diretoria, de cargos e até de emendas.
Bom, mas por que cancelar? Essa é a pergunta que não quer calar. A raiz do cancelamento do outro, para início de conversa, não está no outro, mas dentro daquele que deseja cancelá-lo. O que queremos cancelar no outro é, no fundo, aquilo que não suportamos em nós mesmos, e por isso queremos cancelar. A resistência, os incômodos perseguem os sujeitos que aderem à fuga do ato de cancelar o outro, como se os problemas fossem assim todos resolvidos.
E daí, o que acontece: cancelamos, cancelamos, cancelamos, e no fundo ficamos a sós com as nossas verdades. No mundo on-line, quando cancelamos algo, deixamos de receber o e-mail, as informações, os conteúdos, deixamos de ver... e na vida real também é assim!
O cancelamento existe desde que mundo é mundo. A nossa primeira reação diante do outro que pensa diferente do que eu, que me incomoda, que me desloca do conforto do ser, é cancelar, anular, se distanciar. Isso atravessa gerações, porém, antes isso era feito no confronto do olhar; hoje, com as redes sociais, basta “deixar de seguir”. Isso não mais é confrontado, duelado, é no silêncio que acontece e a um simples toque, num botão azul do Instagram. Mas para onde isso nos leva?
À medida que vamos cancelando o outro, vamos nos anulando, nos fechando, nos cobrindo, colando cercas ao nosso redor. As redes sociais facilitam esse processo e se nós não tomarmos consciência, vamos parar na bolha, como já nos dizia Zygmunt Bauman. O fato é que estamos todos propensos aos fatos, e se não ligarmos o alerta para a situação, seguiremos cancelando o outro e nos anulando. O movimento é recíproco, e se tem uma coisa que a cultura do cancelamento forma são juízes, e assim vamos fazendo do cotidiano, do celular, do digital, nosso tribunal.
Acontece no "Big Brother", aconteceu na Câmara, no Senado e nas nossas casas. Fazer do cancelamento do outro uma sentença do nosso julgamento nunca é a melhor alternativa, até porque julgamos o outro sempre a partir de nós, e nunca dele. Então, que tal cancelar a cultura do cancelamento?