Em uma sociedade machista, mulheres também participam da reprodução e da sustentação do sistema que as oprime e mata. Por mais que a afirmativa possa parecer estranha e, de fato, é, mulheres funcionam como operadoras do sistema patriarcal que as mantém em estado permanente de opressão, vigilância e silenciamento.
A falta de consciência da condição de inferioridade, de violência e de supressão de direitos possibilita que mulheres, eternas vítimas do patriarcado, posicionem-se em condição de reprodutoras e defensoras das mesmas ideias que as colocam em permanente estado de exploração, de desigualdade, de subcidadania e de vítimas da tirania e do poder do macho que as mantém em condição de desumanização e humilhação.
Forjadas dentro de um sistema cultural que as oprime e que naturaliza essa opressão, mulheres acabam por aceitar essa condição como mandamento divino ou como parte de sua natureza biológica, na qual ser mulher implica em fragilidade física e emocional quando comparadas com os homens.
O discurso machista é reproduzido e internalizado como verdade, sendo introjetado no imaginário social e criando um modelo de feminilidade marcado pela ausência de questionamento, resistência e indignação.
O processo de espelhamento da ideologia machista faz parte de uma sofisticada logística consolidada em séculos de manutenção das estruturas de poder que vão se aperfeiçoando e se modificando na medida em que encontram resistência por parte de movimentos emancipatórios como os movimentos feministas.
O processo de aperfeiçoamento das estratégias utilizadas pelo patriarcado para que os privilégios masculinos sejam mantidos e as mulheres continuem na mesma condição de subalternização é tecido por meio de estruturas solidamente enraizadas e institucionalizadas que envolvem o Estado, a igreja e a família.
Essas instituições atuam, seja por meio de discursos, seja por ações, exigindo que as mulheres se restrinjam a seus papeis tradicionais, de mantenedoras do cuidado e da reprodução, abdicando de escolhas pessoais, de desejos, de sonhos de liberdade, de autosatisfação e realização profissional.
A maternidade e o casamento são os únicos desejos legitimados socialmente, por meio dos quais às mulheres é dado o “privilégio” de se sentirem realizadas e completas.
As mesmas mulheres que são oprimidas pelo sistema de alguma forma o validam, reproduzindo as estruturas opressoras e o fazem, muitas vezes, por meio de discursos opressores que humilham, estigmatizam, discriminam e violentam outras mulheres.
O processo de socialização é tão eficaz que as próprias mulheres naturalizam sua opressão e a violência criando ou validando discursos impiedosos e tiranos que se manifestam com violência simbólica, submissão ou normalização de comportamentos opressores.
A submissão feminina pregada nas igrejas e aceita e defendida por muitas mulheres faz parte desse processo altamente eficiente de manutenção de privilégios. A vedação ao uso da palavra nos ofícios religiosos e de ocupação de cargos de liderança, impostos pela maioria das denominações cristãs, demonstra a capacidade de manter o sistema íntegro e operando pelos mesmos mecanismos que há séculos perpetuam o patriarcado, tal qual ele persiste, a despeito dos avanços que foram conquistados pelas mulheres em suas lutas feministas.
A recente vitória no Senado brasileiro de projeto de lei da senadora Damares Alves que objetiva retirar direitos já conquistados por mulheres que são vítimas de estupro e que, grávidas, deverão conviver com o fruto da violência que sofreram, é o sinal mais evidente da adesão de mulheres ao sistema e de como os homens as utilizam como ferramentas perversas de violação de direitos das próprias mulheres.
As táticas do patriarcado se manifestam de múltiplas maneiras. O seu formato depende exclusivamente do interesse em jogo, garantindo-se que o poder continue com os homens.
Senadora Damares, ela mesma vítima da violência que reproduz, não é capaz de compreender como opera o sistema que permitiu que 12 mil bebês nascessem para perpetuar as lembranças trágicas de suas jovens mães, meninas com até 14 anos de idade que foram vítimas de abusos e de violências perpetradas, muitas vezes, por pais, irmãos, vizinhos, avós, amigos e familiares que continuam a gozar os privilégios do poder do macho que se sustenta nas instituições tradicionais da família, da igreja e do Estado.