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Política

CPI da Covid: mentiras, lorotas e coisas de internet

A CPI está servindo, pelo menos, para revelar algumas coisas que os brasileiros desconfiavam, mas que agora estão sendo confirmadas nos depoimentos

Publicado em 28 de Maio de 2021 às 02:00

Públicado em 

28 mai 2021 às 02:00
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia para sanção dos projetos de lei que ampliam a aquisição de vacinas pelo Governo Federal.
Na CPI, Pazuello jurou que Bolsonaro nunca orientou a ampliação do uso de cloroquina ou o rompimento do processo de compra da Coronavac Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
CPI da Covid está servindo, pelo menos, para revelar algumas coisas que os brasileiros desconfiavam, mas que agora estão sendo confirmadas nos depoimentos. Uma delas é a de que Bolsonaro, além de se utilizar das redes sociais, lives e encontros diários com seguidores para anunciar medidas do seu governo, também utilizaria esses mesmos canais para divulgar fanfarronices chamadas pelo ex-ministro da Saúde Pazuello de “coisas de internet”.
Segundo o general, isso teria acontecido, por exemplo, quando Bolsonaro cancelou a compra de 46 milhões de doses de Coronavac, aquisição essa que havia sido anunciada por Pazuello em uma reunião com os governadores em 20 de outubro. No dia seguinte, o presidente escreveu no Twitter que não compraria a “vacina chinesa de João Doria”.
No dia 22, em uma live ao lado do presidente, Pazuello confirmou o cancelamento do protocolo de intenção de compra: “É simples assim: um manda e o outro obedece”. Na CPI, Pazuello negou que tivesse recebido a ordem presidencial; para ele, tudo não passou de “uma posição do agente público na internet, e mais nada”.
Ficaria, então, a constatação de que o que o presidente diz nas redes sociais nem sempre é para valer, seria só uma encenação para distrair a militância. Como, por exemplo, teria ocorrido em 5 de maio, quando ameaçou editar um decreto para garantir a “liberdade de ir e vir”.
A ameaça não parou por aí: “Não ouse contestar, quem quer que seja”. Em 14 de abril ele já havia feito a mesma ameaça quando, dirigindo-se a apoiadores, afirmou que “o Brasil está no limite” e que ele estava apenas “aguardando o povo dar uma sinalização” para tomar providências contra o isolamento social.
Outra constatação oriunda da CPI seria a de que Bolsonaro nunca recomendou ao ministro Pazuello ou à secretária do ministério Mayra Pinheiro a distribuição de cloroquina para “tratamento precoce” da Covid-19 ou deu qualquer recomendação sobre a não aquisição de vacinas. Pazuello jurou que Bolsonaro nunca orientou a ampliação do uso de cloroquina ou o rompimento do processo de compra da Coronavac. Mayra Pinheiro afirmou que nunca recebeu orientação para recomendar cloroquina a quem tem Covid.
Estariam postas, então, duas conclusões iniciais nos trabalhos que estão sendo desenvolvidos na CPI da Covid. A primeira é a de que o presidente da República utilizaria as redes sociais, as lives e os encontros com os seus seguidores para propagar “coisas de internet”, ou seja, lorotas que não guardariam proximidade com a verdade.
A outra conclusão é a de que o presidente da República seria um omisso, já que não dá ordens ou sequer orienta os seus ministros e auxiliares próximos sobre as decisões que o governo precisa tomar nesses tempos difíceis da maior crise sanitária da história recente brasileira.
É difícil imaginar, mas ainda há quem acredite piamente nessas versões absurdas sustentadas nos depoimentos dados à CPI.

José Carlos Corrêa

É jornalista. Atualidades de economia e política, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham análises neste espaço

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