Disse o presidente da República, na segunda-feira (17), que há “alguns idiotas que até hoje ficam em casa”. Ele se referia às pessoas que atendem as recomendações das autoridades sanitárias – que vão desde os dirigentes da OMS e os especialistas aos ex-ministros da Saúde Mandetta e Teich e ao atual ministro Queiroga – e mantêm o isolamento social como forma de evitar a contaminação pelo coronavírus.
Não é a primeira e nem será a última vez que o presidente e alguns integrantes do governo dizem asneiras sobre a pandemia da Covid-19 ou praticam ações que estimulam a disseminação do vírus. Não é outro o motivo da criação da CPI que investiga a atuação do governo federal na pandemia.
Um integrante da CPI chegou a mencionar 40 aglomerações que foram promovidas por Bolsonaro desde o início da pandemia. As aglomerações, segundo as autoridades da saúde, potencializam a propagação do vírus e são apontadas como as maiores responsáveis pela segunda onda da pandemia decorrente das festas de final de ano. No Brasil, os especialistas repetiram alertas com relação ao perigo do repique das contaminações – que de fato ocorreu – após as festas de Natal, ano-novo e carnaval.
Não se resume às pregações contra o isolamento social e à promoção de aglomerações as ações do presidente e do seu governo contrárias às recomendações da ciência. O presidente não usa máscaras nas aglomerações que participa, assim como a maioria dos integrantes do seu governo. O seu vice-líder na Câmara dos Deputados chegou a dizer que o uso de máscaras contribuiu para a evolução do câncer que matou o prefeito de São Paulo Bruno Covas. Em março, um dos filhos do presidente criticou a imprensa por dar destaque à interrupção de uma solenidade na qual o chanceler israelense cobrava o uso de máscara à delegação brasileira.
Várias foram as vezes que o presidente colocou em dúvida a eficácia das vacinas, especialmente a da Coronavac, produzida no Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac. Em outubro, Bolsonaro desautorizou o então ministro Pazuello, que havia anunciado a compra de doses da Coronavac, ao informar que havia cancelado a compra da “vacina chinesa de João Doria” porque não compraria nenhuma vacina com origem na China.
Outra bobagem do presidente foi a insistência em propagandear o “tratamento precoce” com base em medicamentos comprovadamente ineficazes contra a Covid, entre os quais a cloroquina. Até o seu ex-chanceler confirmou, na CPI, que Bolsonaro pediu ao premiê indiano que facilitasse a remessa de cloroquina para o Brasil.
Diante de tantas trapalhadas oficiais, fica fácil perceber quem, de fato, são os idiotas nesse Brasil pandêmico. Entre estes não estão, seguramente, os que ficam em casa em isolamento social e ao lado da ciência.