A rigor, não seria necessário criar uma CPI para mostrar ao mundo que o presidente do Brasil é responsável pelo país ser hoje, ao lado da Índia, o epicentro da propagação na Covid-19 no planeta. Basta a nós, brasileiros, recorrermos à nossa memória porque, afinal de contas, nós vimos tudo. Vimos, por exemplo – e não foi ninguém que nos contou, porque vimos de fato –, o presidente desmerecer a gravidade da pandemia porque ela não passava de “uma gripezinha ou um resfriadinho”. E, no final de 2020, no limiar de uma segunda onda maior que a primeira, dizer que ela já estava “no finzinho”.
Foi o mesmo presidente que disse, em março do ano passado, que “o poder destruidor” do coronavírus estava sendo “superdimensionado”. Para ele, quem tivesse um “histórico de atleta”, como ele, “nada sentiria” se contraísse o vírus.
Que o presidente nunca demonstrou ter a menor empatia com as vítimas da pandemia e suas famílias, ninguém tem dúvidas porque todos vimos ele repetir que, afinal, “todos nós vamos morrer um dia” e que não era “coveiro”. Solicitado a se pronunciar sobre o aumento da quantidade de óbitos decorrentes da pandemia, o presidente voltou a demonstrar indiferença: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”. Há dois meses, chegou a afirmar que os brasileiros precisavam parar de “frescura” e a perguntar: até quando “vão ficar chorando?”.
Que Bolsonaro nunca acreditou na eficácia das vacinas, todos também sabemos porque vimos ele comemorar, como uma vitória sua, a interrupção temporária, em novembro, dos estudos do Instituto Butantan sobre a Coronavac: “Mais uma que o Jair ganha”, disse, para completar que o Brasil deveria “deixar de ser um país de maricas”. Ele não se vacinou e parece amedrontar seus ministros que se vacinaram, tanto que um deles confessou ter tomado a vacina “escondido”, descumprindo a orientação do governo.
Também não seria preciso uma CPI para provar que Bolsonaro provoca aglomerações e faz campanha contra o isolamento social e o uso de máscaras, desobedecendo as orientações das autoridades sanitárias e decretos de prefeitos e governadores. Foi o que fez dezenas de vezes como em Goianápolis (GO), Manaus (AM), Ceilândia (DF) e Feira de Santana (BA) em abril, em Brasília em março, e em São Francisco do Sul (SC), Campina Grande (PB) e Tianguá (CE) em fevereiro, só para citar alguns exemplos recentes.
O presidente sempre divulgou, de maneira explícita, que os brasileiros deveriam tomar um medicamento comprovadamente ineficaz e que pode provocar malefícios à saúde para evitar a Covid-19. Basta se lembrar das lives que o mesmo fez levantando a caixa de cloroquina como se fosse um troféu que iria salvar a humanidade.
O que a CPI da Pandemia fará, esperamos todos nós, brasileiros, é confirmar o que já sabemos há muito tempo, porque está tudo gravado na nossa memória. Afinal, a nossa memória tem valor. Ou não?