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É graduado em Direito pela Ufes e assessor jurídico do Ministério Público Federal (MPF). Questões de cidadania e sociedade têm destaque neste espaço. Escreve às sextas-feiras

Não adianta chorar por Paulo Gustavo e agir como se a Covid não existisse

Precisamos converter a dor, a perplexidade pelo luto precoce e a comoção nacional em autocuidados e, principalmente, em responsabilidade social de evitar que o vírus atinja outras pessoas

Publicado em 07/05/2021 às 02h00
O ator Paulo Gustavo, 42 anos, morto por complicações da Covid no dia 4 de maio
O ator Paulo Gustavo, 42 anos, morreu por complicações da Covid no dia 4 de maio. Crédito: Instagram/ Paulo Gustavo

Faleceu nesta semana, aos 42 anos, o ator, humorista, diretor e roteirista Paulo Gustavo, mais um dentre os mais de 415 mil brasileiros que tiveram suas vidas interrompidas pelo coronavírus. Assim como as demais milhares de vítimas, Paulo Gustavo não é apenas um número, são inúmeras histórias que foram encerradas de modo prematuro por um vírus invisível e letal, que não permite sequer realizar o velório de quem se foi. O falecimento de Paulo Gustavo gerou intensa comoção nacional por se tratar de artista super carismático, com inquestionável talento e capacidade ímpar de levar o sorriso para o rosto de quem o assistia.

Porém, com as devidas vênias, não adianta hoje chorar por Paulo Gustavo e amanhã se comportar como se o coronavírus não existisse ou como se o vírus fosse uma mera “gripezinha” inofensiva, como insistem em aduzir os negacionistas. A morte de Paulo Gustavo e dos mais de 415 mil brasileiros não pode ter sido em vão!

Precisamos converter a dor, a perplexidade pelo luto precoce e a comoção nacional em autocuidados e, principalmente, em responsabilidade social de evitar que o vírus atinja outras pessoas. Por isso, chama tanto a atenção aqueles que, não basta se comportarem como alheios ao coronavírus, sentem-se na necessidade de fotografar e postar seus momentos de curtição na aglomeração sem máscaras.

Nem mesmo a condição de receber os tratamentos mais avançados conseguiu preservar a vida de Paulo Gustavo. Devemos nos proteger e àqueles a quem bem queremos. Para tanto, não é demais insistir no uso contínuo de máscaras de proteção facial quando o contato com outras pessoas for inevitável, reforçar a necessidade de higienizar as mãos, salientar que nenhum tipo de aglomeração é razoável no contexto da pandemia e, sobretudo, grifar, em letras garrafais, que não estamos num período de festas e de socialização.

Lamentavelmente, inúmeras mortes poderiam ter sido evitadas, quer fosse com ações coordenadas por parte do governo federal incentivando as medidas já comprovadas de combate ao coronavírus ou caso não houvesse sido recusadas mais de onze propostas de fornecedores de vacinas ao Brasil. Também não há como deixar de associar as mortes decorrentes de Covid-19 às ações coordenadas de militantes fundamentalistas que buscam, incessantemente, descredibilizar a ciência, induzindo a população a se comportar como aliados do coronavírus em vez de aliados no combate ao vírus.

Ouvidos pela CPI da Pandemia, os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich detalharam que o que os levou a deixarem o ministério em meio à maior pandemia do século foi a insistência de Bolsonaro em questionar a ciência, retirando a autonomia técnica da pasta, chegando a forçar a alteração da bula da cloroquina para incluir uma falsa informação de eficácia no combate ao coronavírus.

Mandetta e Teich foram coerentes em seus depoimentos, assinalando que, a despeito dos inúmeros alertas, Bolsonaro preferiu montar uma assessoria paralela (anticientífica) para fazer justamente o oposto de tudo que era recomendado por pesquisadores e autoridades sanitárias, desdenhando os prognósticos de recrudescimento da pandemia e do morticínio que anunciava seu avizinhamento e, de fato, ocorreu e permanece em curso. Bolsonaro pagou para ver.

Paulo Gustavo e muitos compatriotas morreram vítimas de uma doença que ainda não tem remédio específico, mas tem vacina. Vacinas que o governo brasileiro por muito tempo relutou adquirir, conduzindo à demora na vacinação em massa da população do Brasil e prolongando a face mais agressiva da pandemia.

Negacionismo mata! Escolhas políticas embebidas em fanatismo com pitadas de falta de empatia têm potencial destrutivo!

À família, amigos e fãs de Paulo Gustavo, a mesma solidariedade que se estende às mais de 415 mil famílias enlutadas no Brasil.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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