O Brasil bateu, no mês de abril de 2021, a marca de 400 mil mortos por Covid-19. Mesmo que um ano tenha se passado desde o primeiro caso confirmado da doença no país, os brasileiros sofrem com o pior cenário desde o início da crise. Mas, nem mesmo os dados, as poucas vacinas e uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada no Senado para apurar as omissões e ações do governo federal na condução da pandemia, fizeram o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), mudar de postura no enfrentamento à pandemia.
Bolsonaro é contra medidas restritivas de circulação, criticou a vacina Coronavac, incentiva o uso de medicamentos sem eficácia, não usa máscara, promove aglomerações por onde passa e resiste à ideia de se vacinar.
A conduta é discrepante até mesmo da postura adotada por outros líderes mundiais que, no início da pandemia, também assumiram um discurso negacionista, como o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, o ex-primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, o presidente do México, Andrés Lopéz Obrador, e o próprio ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, em quem Bolsonaro se espelhava.
Durante os primeiros meses deste ano, um conjunto de fatores envolvendo um recorde de desaprovação do governo federal, a anulação das condenações do ex-presidente Lula (PT), que o colocaram no cenário eleitoral de 2022, e a briga com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), pela "paternidade" das primeiras vacinas aplicadas no Brasil, fez com que o presidente acenasse para a ciência.
O mandatário passou a usar máscara e adotou a vacinação como bandeira, mas a postura durou pouco e não foi suficiente nem para fazê-lo aceitar a possibilidade de se vacinar, para dar exemplo aos seus simpatizantes. Mesmo com a CPI instalada no Senado, Bolsonaro voltou a fazer viagens descumprindo todas as medidas de prevenção estipuladas.
Especialistas consultados por A Gazeta ressaltam que, no início da pandemia, ninguém sabia a proporção que a crise sanitária assumiria, mas, ao longo do período de mais de um ano, algumas recomendações têm sido unânimes na comunidade científica e os países que as seguiram já colhem frutos, como a diminuição do número de mortes e um processo de vacinação acelerado.
A grande diferença está no fato de que os outros líderes, mesmo aqueles negacionistas, ouviram a comunidade científica, aponta Michelle Fernandez, doutora em ciência política, professora e pesquisadora da UnB.
"Esse governo, infelizmente, tem sido uma plataforma de desconstrução inclusive da ciência. Ele iguala a ciência à opinião, desqualificando a comunidade científica. Em muitos países, a realidade se impôs. Eles viram que aquela estratégia de enfrentamento estava levando a um agravamento da pandemia. Aqui, por mais pesado que os dados sejam, a realidade não se impôs ao discurso", disse.
Além de manter uma atitude fiel à sua ideologia, Bolsonaro também criou um grande embate com governadores e prefeitos que tentavam implementar as medidas restritivas. Adotando um discurso de combate e polarização, destaca Fernandez, o mandatário colocou economia e saúde em polos diferentes.
"Bolsonaro colocou a pandemia contra a economia, como se fosse uma coisa ou outra. E junto veio a responsabilização de outros atores políticos pelo que estava acontecendo no país. Quando ele não se coloca no lugar de governante que tenta resolver o problema e deixa isso para prefeitos e governadores, passa a culpar os outros pelo que dá errado, sendo que quem está agindo e tentando está mais próximo do que é o certo para resolver a pandemia do que quem está parado", assinalou a professora.
Em vez de defender o isolamento social, o presidente adotou como bandeira um "tratamento precoce", promovendo remédios sem comprovação científica. O país fez investimentos grandes na compra de hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina, sem qualquer respaldo da comunidade acadêmica. Ao mesmo tempo, em setembro, ignorava uma oferta de venda de vacinas da Pfizer, que poderiam ser entregues ainda em dezembro.
"A questão das negativas da vacina tem a ver com um contexto. Entre agosto e setembro o governo fez um investimento muito grande no kit covid e esperava que fosse uma saída mágica para salvar as pessoas sem precisar tomar medidas, como o isolamento. Eles de fato estavam acreditando nessa saída milagrosa", opinou Fernandez.
MUDANÇAS DE POSTURA EM OUTROS PAÍSES
O principal aliado de Bolsonaro no cenário da política internacional era o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No início da pandemia, o então presidente americano também assumiu uma postura de negacionismo, comparando a Covid-19 a uma gripe normal e usando argumentos para que não fosse necessário fechar o comércio. Além disso, Trump também era resistente ao uso de máscara.
Em março do ano passado, o que Trump dizia nos EUA, Bolsonaro repetia no Brasil. Foi assim com o argumento de não deixar que a "cura" fosse pior que o "problema", referindo-se às medidas de restrição ao comércio, e no incentivo ao uso de hidroxicloroquina e azitromicina no "tratamento precoce".
Trump não chegou a assumir uma postura totalmente alinhada ao que diziam as autoridades sanitárias, mas voltou atrás em algumas declarações e posturas após ser aconselhado por aliados políticos e tomar conhecimento de estudos científicos que projetavam um alto número de mortos nos Estados Unidos caso o distanciamento social não fosse seguido.
A mudança começou no mês de abril, quando o país passou da marca de 6 mil para mais de 60 mil mortos pela doença, registrando mais de 2 mil mortes por dia. Desde então, Trump passou a investir na compra de lotes de vacina que estavam em desenvolvimento.
De maio a agosto, o governo fechou seis contratos de compra de doses do imunizante. Hoje, já sob o comando de Joe Biden, o país registra mais de 570 mil mortos, mas é um dos que lideram a vacinação no mundo, com 44% da população imunizada com a primeira dose e 32% com a segunda.
Em junho, após o órgão máximo de saúde norte-americano vetar o uso emergencial de hidroxicloroquina no tratamento de Covid, o país enviou 2 milhões de doses do medicamento para serem usados no Brasil.
Na Itália, primeiro país a ter uma explosão de mortes por Covid-19 na Europa, o ex-primeiro-ministro Giuseppe Conte também minimizou a pandemia. Assim como Bolsonaro, Conte travou uma batalha com governadores e prefeitos que estabeleceram medidas de restrição à circulação de pessoas e chegou a anular decretos de outros gestores.
Para Conte, as medidas adotadas pelos Estados iam "contribuir para o caos". E ele não estava sozinho. O então ministro de Relações Exteriores, Luigi di Maio, culpou uma "cobertura exagerada da mídia" pela redução de voos no país e o prefeito de Milão, Giuseppe Sala, investiu em uma campanha denominada "Milão não para", para incentivar as atividades econômicas.
Ainda no mês de março, no entanto, quando o país marcava 2 mil mortos, o governo italiano mudou de postura, investindo em testagem e adotando um isolamento social que durou mais de dez semanas.
O país registra 121 mil mortes e já imunizou 24% da população com a primeira dose e 10% com a segunda.
O cenário foi parecido no Reino Unido e no México. Boris Johnson, primeiro-ministro do Reino Unido, defendia no início de março de 2020 a teoria da "imunidade de rebanho", também alardeada por atores políticos próximos a Bolsonaro, como o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS). Jonhson decidiu, na época aconselhado por assessores políticos, que não fecharia o comércio, mas esperaria que 60% dos ingleses contraíssem o vírus para se tornarem resistentes à doença.
Bastou um estudo científico apontar a morte de meio milhão de ingleses, no entanto, para que o premiê mudasse de ideia. Ainda no final de março, quando o Reino Unido marcava cerca de 365 mortes pela Covid-19, Johnson passou a defender as medidas restritivas. No mês seguinte, foi contaminado pelo novo coronavírus e passou uma semana internado pelas complicações da doença.
Desde então, o país passou por longos períodos de quarentena. Em abril deste ano, o primeiro-ministro disse, em entrevista, que o número de mortes no país caiu, principalmente, devido ao lockdown imposto desde dezembro e não apenas pela vacina. O país contabiliza 128 mil mortos e já imunizou 53% da população com a primeira dose e 23% com a segunda.
No México, Andrés Manuel Lopéz Obrador, um governante de esquerda, apostava em fevereiro do ano passado que os mexicanos não sofreriam com o agravamento da pandemia. Populista, Obrador continuou andando pelas ruas, cumprimentando e abraçando apoiadores.
"Os mexicanos, por nossa cultura, somos resistentes a todas as calamidades e, nesta ocasião, vamos sair na frente. Nosso povo é possuidor e herdeiro de culturas milenares, de grandes civilizações, daí deriva a nossa força", disse.
Diferentemente dos demais líderes, Obrador não esperou uma escalada de mortes para mudar de ideia. Ainda no final de março de 2020, quando o país contabilizava 12 mortes, o presidente gravou um vídeo de 14 minutos em que pedia para que os mexicanos ficassem em casa. "Precisamos ficar em nossas casas, precisamos manter uma distância saudável. É melhor prevenir do que lamentar", afirmou, em novo tom.
O país reservou 32 bilhões de pesos, cerca de R$ 8 bilhões, para a compra de vacinas contra a Covid-19. Até o momento, o México registrou 200 mil mortos e vacinou cerca de 10% da população com a primeira dose e 6% com a segunda.
"CÁLCULO ELEITORAL"
Bolsonaro passou pelas mesmas situações que todos os líderes citados. Recebeu alertas com a projeção do número de mortos, foi diagnosticado com a doença, assistiu ao país atingir a marca de 4 mil mortos em um dia e viu sua popularidade despencar. Por que, então, não mudou de ideia?
Para o cientista político Nauê Azevedo é uma questão que vai além da ideologia e trata-se de um "cálculo eleitoral".
"O presidente está em campanha desde que foi eleito, isso é aberto. No momento em que ele adota uma postura de conflito, ele consegue se diferenciar e estar sempre combatendo um adversário da ideologia que ele representa. Com esse conflito, ele mantém a base engajada e motivada e com isso gerar uma militância favorável a ele que pode ser decisiva para resolver as eleições a seu favor", afirmou.
O cientista político e professor da UFPE Arthur Leandro destaca que nenhum dos líderes mudou de comportamento de forma fácil ou "de bom grado".
Assumir o papel de ter que se responsabilizar por medidas impopulares compromete a imagem diante dos eleitores. "Esses líderes não constituem uma frente única ou articulada cujo objetivo seria uma resposta acertada para a pandemia. Mas cada um agiu em face das circunstâncias específicas da conjuntura política e eleitoral de cada país", pontuou.
Ainda assim, a postura de Bolsonaro, ao se isolar e se dedicar apenas ao seu núcleo eleitoral, faz com que ele fique imobilizado no quesito governabilidade. "A política que ele constituiu é essa do enfrentamento, do combate, que é uma coisa que ele não consegue usar de maneira instrumental para resolver uma crise. Ele se elege, mas não consegue governar", acrescentou Leandro.
A professora Michelle Fernandez pontua que é difícil dizer se a mudança de postura dos líderes antes negacionistas foi positiva para a imagem enquanto gestores, mas para medir o sucesso das medidas restritivas, ressalta, basta olhar para os países cujos líderes sustentaram "com punho firme" o que era recomendado pelas autoridades sanitárias.
"Os países mais bem-sucedidos são os que sustentaram as medidas impopulares de forma enérgica porque ninguém fez isso de boa vontade. Dizem que não aderir ao isolamento faz parte da cultura do brasileiro e fica parecendo que nos outros lugares as pessoas fizeram por altruísmo. Isso não é verdade. Fizeram porque existiram ações do governo para que fossem aderidas, com multas severas, vigilância nas ruas", finalizou.