A CPI da Covid tem escancarado as contradições e a hipocrisia da ala bolsonarista. A começar pelo fato de que Bolsonaro e seus aliados tentaram a todo custo impedir a instalação da CPI, enquanto em governos anteriores diziam-se ferrenhos defensores de investigações conduzidas pelo Poder Legislativo contra atos ilícitos suspeitos em gestões petistas.
O fanatismo dos extremistas é tão evidente que se assemelha a um delírio persecutório, como se houvesse um grande complô internacional para derrubar o governo de Bolsonaro, uma espécie de esquizofrenia política. Tentam convencer que o objetivo da CPI da Pandemia seria prejudicar aquele que chamam de mito, quando, na verdade, o escopo da CPI é descobrir por que o Brasil é um dos países com maior saldo de mortos pela Covid-19.
Num modus operandi próprio das milícias (que se sentem acima da lei ou a própria lei), defensores do presidente têm protagonizado lamentáveis cenas de quebra de decoro parlamentar para lançar cortina de fumaça.
A contradição vinda da ala bolsonarista não surpreende e já se tornou marca conhecida do grupo. Exemplo claro dessa contradição já havia antes mesmo da CPI da Covid, quando, por exemplo, o ex-ministro Sérgio Moro foi rebaixado de herói nacional ao posto de bandido pelos bolsonaristas.
Ou, ainda, quando antes da eleição, Bolsonaro se referia ao Centrão e a Roberto Jefferson como criminosos, que agora, durante o governo, tornaram-se seus maiores aliados. Tudo isso sem mencionar que o “toma lá, dá cá” (ou presidencialismo de cooptação) característico dos governos anteriores não acabou, pelo contrário, apenas se recrudesceu nessa gestão.
E a contradição dos extremistas não para por aí… Aqueles que antes eram ferrenhos defensores da falácia da cloroquina (comprovadamente ineficaz contra o coronavírus), ao serem ouvidos na CPI mudaram totalmente seu discurso, como se estivessem com medo ou acovardados.
Ouvido na condição de testemunha, o ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi outro a mudar seu próprio discurso, apostando na burrice ou na falta de memória alheia. Araújo foi um dos maiores obstáculos às relações diplomáticas brasileiras, protagonista de diversos ataques levianos à China. Ataques esses que acabaram por prejudicar o acesso do Brasil a insumos e vacinas, isolando o país no contexto internacional. Mas, perante a CPI, Araújo disse que nunca desrespeitou a China. Faltou pouco para elogiar a potência asiática.
Também não há como deixar de consignar que, após tanto desrespeitarem o Supremo Tribunal Federal, pedindo, inclusive, o fechamento da Suprema Corte, os bolsonaristas foram buscar socorro justamente no STF para que o ex-ministro Eduardo Pazuello pudesse ficar calado durante a CPI. As tentativas de Pazuello de fugir da CPI (primeiro dizendo-se com suspeita de contaminação pelo coronavírus após passear sem máscara num shopping e depois recorrendo ao STF) são praticamente uma confissão de culpa. Por que tanto temor? Pazuello sabe de algo apto a incriminá-lo?
Aliás, mais uma contradição: tempos atrás, Bolsonaro chegou a defender a tortura para quem quisesse ficar em silêncio em CPIs. Enfim, pura hipocrisia que, segundo o dicionário, é o ato ou efeito de fingir, de dissimular os verdadeiros sentimentos, intenções. Se Bolsonaro fosse realmente contra aqueles que querem se calar quando inquiridos por CPIs, teria discordado da postura evasiva de Pazuello. Ademais, se, de fato, estivesse convicto de que seu governo agiu corretamente, o clã bolsonarista deveria ser o principal interessado em esclarecer os fatos na CPI.
A CPI da Pandemia tem confirmado que Bolsonaro é apenas mais um da velha classe política, tanto é que agora, no governo, sem hesitar, ele adota as mesmas práticas que tanto criticava em governos pretéritos.