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Gestão da pandemia

CPI da Covid: o governo Bolsonaro e a negação da negação

Em depoimentos à comissão, representantes do Executivo federal fizeram um exercício de contorcionismo explícito para tentar blindar o presidente, mas Bolsonaro logo voltou à cena para reafirmar seu negacionismo

Publicado em 18 de Junho de 2021 às 02:00

Públicado em 

18 jun 2021 às 02:00
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, durante depoimento à CPI da Covid
O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, durante depoimento à CPI da Covid Crédito: Leopoldo Silva/ Agência Senado
O presidente Bolsonaro, ao longo de todo o seu mandato, sempre defendeu o “tratamento precoce” da Covid-19 com o uso de cloroquina (“tomei e estou perfeitamente bem”), espalhou o descrédito com relação à eficácia das vacinas (“se você virar um jacaré é problema seu”) e à gravidade da pandemia (“chega de frescura, de mimimi, vão ficar chorando até quando?”), criticou o isolamento social (“tem uns idiotas aí até hoje do fique em casa”), e o uso de máscaras (“começam a aparecer aqui os efeitos colaterais das máscaras"). Ou seja, foi e continua sendo o líder do negacionismo, ao lado de seus filhos e alguns de seus comandados mais fiéis, contrariando todas as orientações da ciência.
Na CPI da Covid, no entanto, os integrantes e ex-integrantes do governo federal – oficiais e informais – buscam a todo instante negar que o presidente tenha esse comportamento. O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello chegou a dizer que alguns pronunciamentos de Bolsonaro foram somente “coisas de internet”, ou seja, buscavam apenas satisfazer a militância porque não expressavam posições oficiais adotadas pelo governo.
O ex-secretário Élcio Franco jurou que o governo nunca comprou cloroquina para tratamento da Covid-19 e que jamais interrompeu as negociações para compra de vacinas. O ex-ministro Ernesto Araújo repetiu várias vezes que nunca fez críticas à China e, por isso, o governo nunca criou constrangimentos com o nosso principal fornecedor dos insumos de imunizantes.
Em síntese, o que os representantes do governo fizeram na CPI foi o que o jornalista Fernando Gabeira chamou de “negação da negação”. Um exercício de contorcionismo explícito para tentar desobrigar o presidente de responder por suas responsabilidades pelo gigantesco índice de mortalidade da pandemia no Brasil.
Mas, mesmo antes de a CPI da Covid-19 encerrar as suas atividades, o presidente Bolsonaro voltou à cena para desdizer o que seus representantes afirmaram nos depoimentos para tentar blindá-lo. Não bastasse o estudo que encomendou contra o uso de máscaras – mais uma vez batendo de frente contra a ciência –, o negacionismo de Bolsonaro chega ao cúmulo de colocar em dúvida o número de mortes provocadas pela Covid-19 no Brasil. Citando suposto relatório do TCU – logo desmentido por aquele tribunal –, disse Bolsonaro que a quantidade de mortes de brasileiros por Covid-19 é a metade do que está sendo divulgada.
Ou seja, o negacionismo continua mais vivo do que nunca, turbinado pelo próprio presidente que se encarrega pessoalmente de desmerecer todo o empenho que seus auxiliares e ex-auxiliares fazem na CPI para blindá-lo. É sinal de que a CPI da Covid não precisará fazer muito esforço para provar o que todo o Brasil já sabe: que o governo Bolsonaro contribuiu e continua contribuindo para fomentar a disseminação do vírus ao adotar um caminho diametralmente oposto a todos os conceitos adotados pela ciência.

José Carlos Corrêa

E jornalista. Atualidades de economia e politica, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham analises neste espaco.

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