*Artigo coescrito com Antonio Ricardo Freislebem da Rocha*
A pandemia provocada pelo novo coronavírus (Covid-19) se impõe como um desafio sem precedentes, não apenas a nível local, mas globalmente. Milhares de vidas estão sendo perdidas diariamente no mundo. Medidas de distanciamento social visam mitigar os efeitos da pandemia. Ainda que seja desenvolvida uma vacina eficaz, o tempo para que se produza tal recurso e o faça chegar a todos os países demandará um tempo considerável.
Por outro lado, os efeitos das ações necessárias para desacelerar a disseminação do vírus trouxeram consequências sociais e econômicas. Empregos perdidos em todo o mundo, empresas fechando e quedas bilionárias nas arrecadações exigem, numa visão coletiva, um “novo” modus operandi, uma nova forma de pensar a economia mundial e atuação governamental.
Há os que defendem um maior intervencionismo estatal baseado numa maior presença do Estado, enquanto outros não entendem dessa forma, devendo o Estado agir apenas subsidiariamente, criando as condições para que os agentes privados comandem a tão desejada recuperação econômica.
Independentemente do tamanho da presença do Estado, uma pergunta importante se faz: qual será a forma da recuperação brasileira?
A análise da tendência de indicadores econômicos, em gráficos de rápida visualização, permite identificar algumas formas possíveis de retomada que podem ser caracterizadas pelas aproximações às letras “W”, “L”, “U” e “V”. É uma verdadeira sopa de letras para compreender os cenários de melhoria econômica pós os impactos mais severos trazidos pela Covid-19.
Em uma tendência de recuperação em “L”, a economia do país sofre o impacto trazido pelo novo coronavírus e os níveis de crescimento não retornam aos patamares anteriores no médio prazo. O ritmo de expansão também passa a ser mais lento.
O comportamento em “W” destaca dois choques ocasionados pela pandemia. O primeiro é sentido com a disseminação inicial da Covid-19. Por conta das medidas necessárias de distanciamento social, a atividade econômica é reduzida. O aparente controle da doença pode levar a nação a retomar de imediato todos os segmentos econômicos. Essa ação pode elevar bruscamente a interação social, o que pode engendrar uma segunda onda de contágio e, consequentemente, outra retração na economia com posterior recuperação.
A forma de recuperação em “U” descreve uma tendência de crescimento interrompida pelos desdobramentos da pandemia. Depois do primeiro impacto, a economia do país permanece em níveis baixos no curto e médio prazo, retomando posteriormente o crescimento ao patamar anterior (ou próximo) a crise, porém, com ritmo de expansão econômica mais lento.
Na tendência em “V”, as atividades econômicas são influenciadas pelos efeitos da pandemia, todavia em curto prazo o nível e o ritmo de crescimento registrados anteriormente são alcançados. Esse comportamento é o que representa efeitos negativos menores.
Para os brasileiros, a melhor tendência seria essa última. Entretanto, insta salientar que desde a crise, que se intensificou em 2015 e 2016, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro não estabeleceu uma retomada consistente. A variação anual do nosso PIB em 2017 e 2018 foi de 1,3%. Em 2019, o resultado foi menor, 1,1%. Comparado com o último trimestre de 2019, o primeiro trimestre de 2020 evidenciou uma retração de 1,5%. Os primeiros efeitos da Covid-19 influenciaram parcialmente esse resultado.
O futuro é incerto e a pandemia deixará reflexos negativos. Por enquanto, o que precisamos fazer é tentar buscar um meio termo que concilie equilibradamente tanto as medidas de distanciamento social, quanto as medidas de restabelecimento das atividades do mercado com um protocolo responsável de segurança em saúde. Essa não é uma tarefa simples, mas sim necessária para a construção de um novo padrão de normalidade.
*O autor convidado é doutorando em Economia e pesquisador do IJSN