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Maria Sanz

Crônica: Olhai os lírios

Estamos tão profundamente envolvidos com a corrente de comunicação e possibilidades que jorram sem cessar das telas que, pouco a pouco, estamos perdendo a habilidade de reconhecer, conectar – e que dirá conquistar, o que realmente importa

Públicado em 

12 dez 2021 às 02:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Lírios, flores
Estamos tão presos olhando as telas, que não vemos as belezas ao redor, como os lírios, e não nos aprofundamos no que realmente importa Crédito: Pixabay
"Todos os dias, conquiste a paz de espírito e construa a vida em torno disso". Adoro essa frase. Mas ando pensando numa coisa terrível: na era da informação, a ignorância literalmente virou uma alternativa.
Estamos tão profundamente envolvidos com a corrente de comunicação e possibilidades que jorram sem cessar das telas e dos auto-falantes que, pouco a pouco, estamos perdendo a habilidade de reconhecer, conectar – e que dirá conquistar, o que realmente importa.
Lembra da época em que havia apenas uma fogueira, uma televisão, ou um aparelho de telefone para toda família? Eu sei, não adianta ficar olhando para trás, mascando nostalgia, mas o fato é que tínhamos menos alternativas e ainda assim, éramos mais felizes e menos egoístas.
"Evoluímos" ao ponto em que o excesso de facilidades para o "progresso pessoal" está moldando indivíduos cada vez mais egocêntricos e, consequentemente, mais infelizes.
Pense comigo: na teoria, quanto mais opções, mais alegria. Certo?
Acontece que, na prática, é exatamente o oposto disso. Escolhas e julgamentos produzem angústia, são riscos, significam abrir mão da outra opção e, sobretudo, podem ser decisivos: estar certo ou errado. De modo que, o excesso que nos é oferecido até parece uma vantagem, mas no fim das contas, traz culpa e ansiedade.
Repare, depois dos cinco anos de idade, quanto mais satisfazemos nosso apetite egoísta, agindo em benefício do nosso bem estar exclusivo, pior nos sentimos. Uma, porque perdemos o parâmetro (o bem estar alheio é sempre uma ótima referência); outra, porque a paz advém do equilíbrio.
A complexidade do sistema e os excessos ofertados, consumidos ou simplesmente dispostos ao nosso alcance, estão gerando uma estado de ansiedade coletiva. Estamos perdidos!
Natural. Reagimos ao excesso fechando os olhos, mergulhando, negando ou literalmente ignorando o que aconteça para não termos que tomar decisões. E ignorando, delegamos a decisão para alguém mais decidido, ou mais ambicioso, com mais poderio ou mais peito – que tanto pode ser um bom pastor, quanto um grande tirano. Fato é que passando o bastão da decisão para o outro, o nível de ansiedade fica mais baixo, relaxamos. Mas acontece que isso é perigosíssimo...
Se déssemos conta de compreender que agindo em benefício do coletivo (imagine círculos: casal, família, amigos, condomínio, sociedade, cidade, mundo, universo, cósmos...) nossas escolhas ficariam mais restritas, mas ao mesmo tempo, nos fariam mais felizes. (E então essa se tornaria uma estratégia de vida).
E não é papinho... O meio em que vivemos depende de nossas escolhas pessoais. Essas, mais triviais, que fazemos todos os dias. Como identificar, por exemplo, o que significa "a sua" paz de espírito.
Haja visto que só depois desta pequena (fundamental) conquista "o resto" vai fazer sentido.
Finalmente, mudanças sociais (grandes ou pequenas) dependem de críticas sociais. Mas o sistema atual, nos distrai direitinho... E não só isso, ela também nos encoraja a fechar os olhos para o todo, e focar apenas no próprio umbigo.
Enquanto não compreendermos que estamos aqui para evoluirmos juntos; enquanto comprarmos a sensação de que somos o centro do mundo, com autoridade para julgar, medir e nos compararmos uns aos outros, seguiremos por este caminho escuro e confuso, nos sentindo cada vez mais autocríticos, ansiosos, insatisfeitos e perdidos.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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