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Cotidiano

Crônica: Masculinidade nova

Sejamos todos femininos o suficiente para fazer o verdadeiro masculino se revelar – ou arcos flexíveis o bastante para novas flechas afiadas e brilhantes cruzarem o ar

Publicado em 21 de Novembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

21 nov 2021 às 02:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

E como não? Se o tempo é novo, ora!
Então me diga, o que constitui o arquétipo do novo masculino?
Pra começar precisamos celebrar a desconstrução do modelo antigo, esse que você já conhece, pré-moldado e estabelecido.
A começar pela mais gasta das frases: “Homem não chora.”
Não chora quando? Não chora quando quer? Não chora quando cresce? Não chora quando tem alguém olhando? Não chora quando deveria?
Quantas falácias não são imputadas ao homem em nome do sustento da masculinidade?
“Homem mata a cobra e mostra o pau.”
Mata mesmo? Homem não tem medo? Nem de cobra, nem de nada?
Homem que é homem não volta atrás. Homem tem que ser viril. Homem não precisa de ajuda. Homem é cabra macho. Diacho!
No fundo todo mundo sabe, quanto mais forte a afirmação, maior a dúvida... Maior o medo, maior o temor, a insegurança, a apreensão...
Essa imagem masculina forjada na força bruta é uma jaula para alma. E a instrução social, que funciona como um código moral, é em si uma violência que afasta, isola, separa o homem de si mesmo... E é por isso que o homem sofre, e sofre sozinho, e sofre em silêncio. E o pior de tudo, sofre impondo aos outros seu próprio sofrimento.
De modo que a nova masculinidade é um recurso da linguagem!
Uma possibilidade de abertura, sem subterfúgios de poder, sem recursos de afirmação, sem imposição de pontos de vista rígidos, controlados, decididos. Ao contrário, é o recurso de uma nova linguagem que desmonta o esquema e autoriza o homem à vulnerabilidade, o que é muito mais próximo de um pedido de ajuda... Um pedido por cuidado.
Pedir ajuda é um ato revolucionário! E a abertura emocional, libertação. Uma escolha finalmente possível... É, finalmente o homem pode dizer o que sente. E não se engane, poder exercer esse estado emocional vulnerável é uma grande conquista. Um ganho sem medidas para nossa evolução como humanos.
De modo que venho dar um "Salve!" ao artista que estreiou essa nova possibilidade. Obrigada, Tiago Iorc – jovem, branco, hétero, famoso, bem-sucedido e agora, corajoso – obrigada por rasgar a fantasia patriarcal e confessar que seu vício em pornografia e seus hábitos machistas fundaram em seu corpo físico e emocional um poço depressivo.
Obrigada por denunciar e sugerir que seus irmãos façam o mesmo: despertem.
Obrigada, irmão, por cuidar do seu emocional; Obrigada, Tiago, por falar do que sente para o mundo inteiro na rede, e com estilo suficiente para fazer a mensagem voar.
Sejamos todos femininos o suficiente para fazer o verdadeiro masculino se revelar – ou arcos flexíveis o bastante para novas flechas afiadas e brilhantes cruzarem o ar.
Vamos além!

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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