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Cotidiano

Crônica: domador

Sabedoria de domador é então se aproveitar desta carnívora motivação. Porque com a fome saciada, até uma fera se deixa ser domada

Publicado em 07 de Novembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

07 nov 2021 às 02:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Casal de namorados
É que viver uma paixão também requer mais habilidade que determinação... É tarefa perigosa, risco que se corre por vontade Crédito: Freepik
A potência desta palavra pode nos levar ao engano de achar que é ele quem manda de fato. Claro, como se sabe, não existe domador para o que não é arriscado.
– Aplausos aos que domam leão!
Habilidade neste oficio é mais importante que determinação.
Por isso, quando íamos ao circo assistíamos emudecidos ao homem que entrava na jaula do temível rei da selva e, estalando o chicote que trazia na mão, fazia o bicho saltar por entre arcos em chamas e rosnar bem forte pra causar impressão.
Ah, o leão... Solto na savana, poucas coisas lhe imporiam obediência. Mas na condição de atração, toda sua majestade é dada em troca de carne fresca e suculenta, oferecida pouco a pouco, em estratégicas porções.
Sabedoria de domador é então se aproveitar desta carnívora motivação. Porque com a fome saciada, até uma fera se deixa ser domada.
De modo que, se o grande rei da selva também tem seu ponto fraco, o que esperar do bicho-homem, que só se difere dos demais porque bebe sem sede, come sem fome, acredita no amor e se entrega de bandeja ao próprio domador?
É que viver uma paixão também requer mais habilidade que determinação... É tarefa perigosa, risco que se corre por vontade. É troca de forças, exercício de sobrevivência – e de vaidade. É dependência espontânea, fome violenta, círculo de fogo – é a faísca da chicotada.
Um deseja, o outro precisa.
Como dito, com fome o leão não pula e sem pulo, o domador é nada. Para matar a vontade da carne, ele pula, entrega as armas. Enquanto o outro, todo engomadão, faz o que pode, finge que manda e grita forte, estalando o chicote no chão.
Em ambos os picadeiros – tanto no circo, quanto no da paixão, há sempre muito risco (apesar da diversão). Razão pela qual tenho certeza: amar loucamente é uma insensatez comparável à profissão daqueles que domam leão.
(Vivo sem não!)
Seja como for, arrisque-se, apaixone-se, duele com a emoção. Mas não se esqueça: assim como no famoso número do leão, nem sempre quem manda é aquele que ostenta um chicote na mão.
Porque todo mundo sabe, o domador entra na jaula brilhando, de casaca engomada, tirando onda de valentão – mas se a qualquer momento der a louca na fera, aí ele vai ser devorado inteiro, sob olhares impotentes, bem no meio da multidão.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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