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Cotidiano

Crônica: venenosos

E nem importa como o ‘outro’ tenha conquistado a glória, se com sorte e facilidade ou suor e sacrifício, fato é que o invejoso secretamente rivaliza, mede, compara.

Publicado em 10 de Outubro de 2021 às 02:00

Públicado em 

10 out 2021 às 02:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Mulher conversando
Ah, quanta gente pequena não escolhe ou inventa rivais que lhes ignoram a existência? Crédito: Freepik
O invejoso não é um sujeito que deseja o que o outro tem. Ele é aquele que o julga indigno de tê-lo.
O invejoso não suporta que o outro possa ser aquilo que ele não é, ou ter aquilo que ele não tem. E nem importa como o ‘outro’ tenha conquistado a glória, se com sorte e facilidade ou suor e sacrifício, fato é que o invejoso secretamente rivaliza, mede, compara.
Diferente da cobiça, que se sustenta sobre o desejo (do que é de posse de terceiros); a inveja é um despeito pelo sucesso alheio, que não raro se converte na tentativa (maldosa) de tira-lhe a dignidade. E é espremendo mentalmente a justificativa deste ‘não merecimento’ que nasce o veneno... E assim, a maldade facilmente se disfarça entre a casualidade das palavras.
Ora, está na raiz da inveja o sentimento de delação - “Se eu não posso, ele não pode”. Ou, em português claro, a inveja é o útero de toda calúnia, de toda fofoca, de maldição.
Daí o trunfo do disfarce: fofoca é palavra venenosa, fato aleijado ou mentira órfã, semeada ao sabor do vento. Você sabe, não há como recolher as plumas negras espalhadas por um vendaval. Mesmo porque, após misturadas à poeira, elas tomam acento sobre os telhados das casas, entram janela abaixo, caem sobre os jarros, se mesclam nas compotas, e colam nas paredes da garganta de uma gente de cera, que faz questão de passá-las adiante como sendo verdadeiras.
- Coisa feia!
A maldade bem disfarçada não se esconde, desfila e sapateia.
- Tsc, fazer o quê sobre isso? Se a fofoca é a recreação dos não-criativos!
Remédio único está na imortalizada canção de Cazuza que, em verso, implora “vamos pedir piedade, Senhor piedade, pra essa gente careta e covarde”.
Ah, quanta gente pequena não escolhe ou inventa rivais que lhes ignoram a existência? E quantas pessoas ricas de espírito não são martirizadas por palavras atiradas às escondidas. Sim, porque aos olhos invejosos, pessoas de bem com a vida, sortudas ou simplesmente sadias parecem caminhar pela rua num tanque de guerra (branco) intimando-os para um confronto.
- Mas, como se sabe, a guerra está na cabeça de quem enxerga a felicidade alheia como um insulto à própria miséria.
Por que no lugar de construir um tanque forte para si, eles continuam alí, de trás da moita, atirando veneno e palavras negras ao vento, na tentativa de sujar a brancura de qualquer um que atravesse de cabeça erguida a rua?
(Não é a toa que muita mãe ensina a velha lição: “seja educado, mastigue de boca fechada, não grite, nem fale palavrão. E se, por acaso, você conhecer a felicidade meu filho, não espalhe. Muita gente também se sente agredida com isso).
Engraçado, parece que hoje a fofoca não só é um tipo aceito de maldade, como é também uma prática desejável. Ora, quem nunca sabe da ‘última’ ou não tem na ponta da língua uma historinha (suja) é normalmente ‘a chata’ da turma. É que mais do que nunca, na nossa cultura o cinismo é o rei do circo.
Honestamente, acho triste assistir ao venenoso produto da inveja sendo difundido e festejado pelos cafés, festas, academias, salas e salões da cidade. (Sem falar da mídia especializada, que é um caso a parte). Convenhamos, repassar a maldade pelo simples prazer de ver o outro arregalar a cara é, dos truques, o mais barato.
Infelizmente, fofoca só não é um passatempo (e sim uma grande maldade) para quem já esteve do outro lado. Em todo caso, pra os caretas e covardes, Senhor, piedade.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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