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Maria Sanz

Crônica: o habilidoso equilibrista da vida

O homem simples sabia o elementar: não se deixar levar pelas coisas que não podia controlar

Publicado em 03 de Outubro de 2021 às 02:00

Públicado em 

03 out 2021 às 02:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Vaqueiro, cowboy, pasto, cavalo
Mesmo vivendo sossegado, no meio do mato, longe, longe da civilização, o velho Tônho sabia que a vida mudaria Crédito: Pixabay
Equilíbrio
sm. 1. Manutenção dum corpo na posição normal, sem oscilações ou desvios. 2. Igualdade entre forças opostas. 3. Estabilidade mental e emocional.
Era uma vez seu Antônio. Ele era o dono de uma fazenda bonita lá no meio do Pará, onde vivia com sua esposa Matilde e Matheus, seu único filho. Certa noite, Napoleão, um de seus melhores cavalos fugiu do pasto.
Na manhã seguinte, assim que soube do ocorrido, seu vizinho Juvenal veio até a cerca da fazenda e gritou: “Ô, compadre! O Zé das Couves me disse que o Napoleão fugiu. Mas, que azar, eihn!”
E o velho Tônho, mascando um pedaço de cana, fez: “é, talvez...”
No outro dia, Napoleão voltou para a fazenda com mais três cavalos selvagens, um preto, um branco e um malhado. Zé das Couves correu pra contar a novidade ao seu Juvenal – que veio numa carreira só até a cerca. Quando avistou os quatro cavalos bebendo água no pasto, gritou: “Ô, Tônho! Ele voltou com mais três galopantes? Mas que sorte danada, einh!”
E seu Antônio, enchendo o bebedouro com um balde d’água, fez: “é, talvez...”
Na tarde do dia seguinte, o jovem Matheus, filho único de seu Tônho, insistiu em montar a égua malhada, que relinchava e dava coices em qualquer um que se aproximava. Mas o menino tanto fez que conseguiu montá-la e partiu em disparada para dentro da mata.
Quando chegou na beira do riacho, a égua empinou com tudo derrubando no chão o garoto, que quebrou a perna direita e urrou de dor. Ouvindo aquele urro terrível, seu Antônio montou Napoleão e partiu em busca do filho, que se contorcia na beira do rio. Ainda naquela tarde, mandaram buscar na cidade seu Torres, uma espécie de médico, curandeiro da localidade. E o diagnóstico foi brutal: Matheus voltaria a andar, mas seria manco para sempre.
De chapéu na mão e camisa limpa, seu Juvenal adentrou a sala da casa da fazenda do compadre e, com a voz embargada, foi dizendo: “Ô, meu amigo, o Zé me disse do acontecido com seu filho. Sinto muitíssimo. Mas que azar terrível, eihn...”
E seu Antônio, passando no coador um café amargo, fez: “é, talvez...”
Depois de uma semana, chegou na fazenda um oficial do exército procurando jovens para o serviço militar compulsório. Eram tempos de guerra e o país precisava de recrutas para mandar aos campos de batalha. O homem fardado entrou na fazenda com ares encrespados, mas tão logo avistou o jovem Matheus mancando, desconfiou, desceu do cavalo e foi perguntar o que havia acontecido. Constatando a veracidade e a gravidade do problema, o oficial deu meia volta e partiu.
Nem bem baixara a poeira da estrada, Zé da Couves já dava nota ao seu Juvenal, que correu feito menino até a cerca e gritou esfaqueando o ar de alegria: “Ô, Tônho! O Zé disse que seu menino não vai precisar servir às armas. Mas que sorte grande danada, hein!”
E seu Antônio, que estava sentado na varanda da casa, limpando um par de botas com um pedaço de pano, fez: “é, talvez, compadre.”
Mesmo vivendo sossegado, no meio do mato, longe, longe da civilização, o velho Tônho sabia que a vida mudaria, sempre, radicalmente, quase todos os dias. Razão pela qual não se apegava ao caráter bom ou mau dos acontecimentos. Diferentemente de seu compadre Juvenal, não mudava de opinião sobre a própria sorte, dependendo do que lhe acontecia. Nem se deixava ficar deprimido diante de um infortúnio; nem saia pulando de alegria quando alguma coisa boa aparecia. Não. Ele não se apegava aos rótulos que o destino lhe oferecia.
Aliás, aquele era um homem simples, que sabia o elementar: não se deixava levar pelas coisas que não podia controlar. Ou, cortando em miúdos, no lugar de reagir a tudo, como todo mundo, ele apenas observava (e aprendia...).
Para muitos, um homem frio. Para outros, um matuto. Para ele e sua família, um habilidoso equilibrista.
– “É, talvez...” – ele diria.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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