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Crônica

Colaborar; trabalhar em comum com outrem na mesma obra

Precisamos virar o jogo, agir, profissionalizar, transformar a produção local em um bom negócio e num negócio bom! Aplaudir e frequentar, investir e honrar nossos artistas é, sem dúvida, semear um futuro mais criativo

Publicado em 12 de Setembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

12 set 2021 às 02:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

amigos
Por que ao invés de reclamar, não sentimos gratidão pelas oportunidades que já existem? Crédito: Freepik
Dia desses fui assistir ao show de uma cantora brilhante que, apesar de jovem, levou o espetáculo com ares de quem sabe o que faz. Improvisou, cedeu espaço para uma moça da plateia cantar, convidou dois amigos músicos para tocarem com ela e, de lambuja, no final, ainda abriu para um bate-papo com o público. O tema era "a cena musical no nosso estado".
Pois bem, o primeiro a falar foi o um saxofonista sensacional, formado na nossa Universidade Federal, que falou sobre as dificuldades de se levar uma carreira musical por aqui. Depois falou o outro músico, um guitarrista que há anos estuda em uma das maiores faculdades de música do mundo, nos Estados Unidos.
Direto ao ponto, o rapaz foi dizendo que para ter uma carreira no show-business é preciso uma mentalidade que considere o entretenimento como um "negócio" propriamente dito. Porque não adianta reclamar, se o sujeito fica tocando na noite por uma merreca, quando não de graça, achando que um dia será descoberto ou reconhecido. Pelo contrário, é preciso saber comercializar o próprio talento e vender aquilo em que se acredita.
Gostei da fala dele. Acho que é isso mesmo, precisamos abrir mão do ranço cultural (nacional) que jura de pé junto que ser artista é uma escolha improdutiva... Precisamos virar o jogo, agir, profissionalizar, transformar a produção local em um bom negócio e num negócio bom! Aplaudir e frequentar, investir e honrar nossos artistas é, sem dúvida, semear um futuro mais criativo – assim penso.
Pois bem, na sequência dessa fala do guitarrista, o microfone voltou para o saxofonista que emendou um lamento: "é, mas só quem vive por aqui sabe como é difícil. Porque são várias panelinhas, muita competição... Aqui em Vitória, a união só rola mesmo no Carnaval".
Foi aí que não me aguentei e pedi a vez para levantar uma bandeira: e por que não cultivar essa comunhão e essa alegria que o Carnaval propicia o ano inteiro? Por que ao invés de reclamar, não sentimos gratidão pelas oportunidades que já existem? Por que não praticar a colaboração todos os dias? Por que não crescermos unidos pra cima da vida?
A mentalidade que gera lucro é benéfica sim! E tem que ser para todo mundo. É aquela velha história, tem espaço de sobra! Não precisamos competir, não precisamos nos comparar, menos ainda alimentar o medo da escassez. Não é preciso dar de comer ao desejo egoísta de brilhar sozinho – mesmo porque não combina com esse mundo múltiplo de possibilidades infinitas.
Precisamos criar uma cultura de união. E cada um de nós deve se responsabilizar por isso. Respeitando as diferenças, abrindo caminhos, gerando alegria, encontrando uns aos outros e, finalmente, nosso próprio lugar no mundo.
Seja nas artes, na música, na moda, na dança, no jornalismo, no comércio, na indústria. Seja na rua, no bairro, na cidade, no estado. Seja no nome, na roupa, na religião, na história, no estilo. Não importa o meio onde vivemos, nem aquilo que nos diferencia. Sejamos maiores que os limites, sejamos livres para amadurecermos o compromisso de honrar cada curva do caminho – e, sobretudo, sejamos cada vez mais unidos.
Nota: esteja atento aos truques do sistema que organiza a sociedade em que vivemos, porque ele não está exatamente interessado na harmonia, ao contrário.
De modo que precisaremos construir a união apesar disso.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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