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Cotidiano

Crônica: sela própria

Porque este desejo que plantam na gente desde pequenos, é um superlativo extremado – que beira o ridículo. Na verdade, qualquer ideia que nos faça acreditar que isso é mesmo possível, deseja ser "comprada", só isso

Publicado em 22 de Agosto de 2021 às 02:00

Públicado em 

22 ago 2021 às 02:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

amigas conversando
Na verdade, qualquer ideia que nos faça acreditar que isso é mesmo possível, deseja ser "comprada", só isso. Crédito: Freepik
Outro dia alguém me ameaçou a paz com aquele ditado "ó, cavalo selado não passa duas vezes" – aí eu discordei e a conversa esquentou.
De onde veio essa ideia que liga a oportunidade de ganhar ao medo de perder?
Pensamento mais simplório, comparativo, angustiante...
Poxa, pensa comigo, essa lógica não fala de um cavalo comum, nem do seu cavalo de estimação, ela fala do "melhor" cavalo possível.
Aquele certo, garantido! E ameaça sobre a incapacidade de distingui-lo, do risco de não montá-lo e, e "perda" atrelada a tudo isso.
Ora, o medo de perder é pior que o medo de já ter perdido.
Ou seja, esperar pelo cavalo selado pode ser pior que a certeza de que não haverá cavalo.
Donde concluo que a cura para essa angústia talvez seja tornar-se convicto.
Assim, poderemos finalmente lidar com isso! (O que é libertador, no mínimo.)
Em português claro: não existe "melhor" cavalo. Porque "o melhor" é caricato, uma ilusão vendida, uma ideologia.
Aliás, nada mais vulgar e nocivo que a tentativa de alcançar "o melhor".
Porque este desejo que plantam na gente desde pequenos, é um superlativo extremado – que beira o ridículo. Na verdade, qualquer ideia que nos faça acreditar que isso é mesmo possível, deseja ser "comprada", só isso.
Percebe? Na maioria das vezes em que nos deixamos atrair pela "oportunidade" de sermos importantes, maiores, melhores, especiais, escolhidos ou privilegiados, estamos nos rendendo, nos associando, ou nos moldando a algum tipo de critério externo – via de regra, interessado.
Interessado em suas próprias regras! Como o sistema que confere prestígio aos seus fiéis e maldiz os falhos.
É da nossa cultura... Fomos educados para jamais perder um "cavalo selado" – seja lá o que for isso – de modo que ficamos olhando pra fora, esperando, julgando, comparando, medindo. Nos adequando aos sistema de recompensas, pirâmides de privilégios e cadeias de garantias.
Tudo, para não perder a chance de... De quê mesmo?
Enfim, "estou esperando o homem da minha vida" – ouvi uma amiga dizer entre goles, enquanto olhava para os lados, como treinasse a atenção e a agilidade para pular na sela ideal, que um dia há de passar por ali...
Não disse na hora, mas pensei: amiga, "ele" são todos e nenhum deles. "Ele" não existe e, ao mesmo tempo, está bem aqui, neste bar. "Ele", ou este fenômeno pelo qual você espera é, na verdade, a manifestação de uma força íntima, uma interseção cósmica, uma aprendizagem – o resultado do amor-próprio quando transborda.
Porque amor, paz, alegria, saúde, sorte, não têm nada a ver com a dupla "poder e oportunidade", mas com modéstia, humildade, compaixão e graça. E, como bem se sabe, nada disso vem de fora...
De modo que concluo: ao invés de esperar por um cavalo que já venha selado, mais vale tecer uma montaria própria, com paciência, autoconhecimento e equanimidade.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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