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É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

Crônica: ela é gostosa

Dando as boas-vindas ao bebê que vai nascer, ele convida: “Venha conhecer a vida! Eu digo que ela é gostosa. Tem o sol e tem a lua, tem o medo e tem a rosa”

Publicado em 29/08/2021 às 02h00
Bebê
Tem uma gente pra chamar de nossa (família)! Tem dúvida não, amor da tia: venha ver como ela é gostosa!. Crédito: jcomp/Freepik

Para o meu único irmão,

Assim diz Caetano na canção “Boas-vindas” – que por acaso, nunca falha em me fazer chorar.

Dando as boas-vindas ao bebê que vai nascer, ele convida: “Venha conhecer a vida! Eu digo que ela é gostosa. Tem o sol e tem a lua, tem o medo e tem a rosa”.

E repete: “eu digo que ela é gostosa. Tem a noite e tem o dia, a poesia e tem a prosa”.

E insiste: “eu digo que ela é gostosa. Tem a morte e tem o amor, e tem o mote e tem a glosa. Eu digo que ela é gostosa...”

Impossível discordar. Aliás, difícil até não dar sequência a este pensar...

Tem o choro e tem o gozo. Tem o ímã, tem o orvalho, tem o suor e tem o sábado. Tem o castelo de areia e tem a lenda das sereias. Tem o mel de abelha, tem a canção de ninar, tem cafuné, e tem o cheiro do café. Tem o céu, tem o sal e tem a água do mar. Tem a margarida, tem o canário e tem a cor lilás. Tem a pipa no ar, tem a rosca amanteigada, tem a cosquinha, tem arroz com feijão, e tem o travesseiro antigo. Tem a brincadeira, o segredo, o cochicho, o arrepio e o cheiro dos cabelos. Tem o champanhe, tem o horizonte, tem a alegria, tem a chuva e o biscoito maizena com suco de uva. Tem a fada do dente, tem o carnaval, tem o trem e tem o trilho. Tem colo de mãe, palavra de pai, e tem a mão do irmão. Tem Maria, tem João, tem a flor e tem o espinho. Tem o melhor amigo, tem o imperfeito, tem a verdade, tem a mentira e tem o perdão. Tem a ioga, tem o vinho e tem o vício. Tem o balanço, tem o parquinho, tem a fábula, tem a princesa e tem o príncipe. Tem a luz de vela, tem o violão, tem o samba, tem a gargalhada e tem a noite de São João. Tem a fé, a esperança, tem a festa e tem a dança. Tem o arco-íris, tem o pé descalço, tem a beira do rio, tem o peixe e tem a pescaria. Tem as acácias, tem o jambo, a pitanga, o pé de jaca e tem a formiga. Tem a lagartixa, o escuro, as estrelas, e tem a janela aberta. Tem a brisa, a saudade, tem o mistério, tem o retrato, e o cheiro preso no velho agasalho. Tem a poeira na estrada, tem o erro, tem o destino, tem o nome e tem o signo. Tem a família, tem pão fresco, tem o leite e o mingau de aveia. Tem a casa, o Natal, tem as nozes e tem a farofa. Tem o mapa, o tesouro, a cigana e o pirata. Tem maré enchendo, maré vazando, tem o berço e tem a fonte. Tem noite de lua cheia, tem o pé de carambola, tem o azul da piscina e tem o jogo de bola. Tem os dias, as ondas, tem a prancha, tem o pôr do sol, a paz e os orixás. Tem o dia de Iemanjá, tem a praia de areia branca, tem a casa na montanha e tem o verde da grama. Tem a joaninha, tem o cachorro, tem o gato, tem a sala e tem o quarto. Tem o tambor, tem a lança, tem a fogueira e tem a roda. Tem o verão, tem o samba, tem a baiana, tem o quintal e tem o banho de mangueira. Tem a sombra no muro, tem o banco na praça, tem a pipoca, tem as mãos dadas, tem a espera e a demora. Tem o avião e tem a colher de pau. Tem a jura, o batizado, a briga e as pazes. Tem o passar dos anos, tem o passo, tem o caminho, e tem o cansaço. Tem o mundo redondo, tem o dom, tem o cometa, a galáxia e os planetas. Tem o beijo, o gosto de viver, tem o homem, a mulher, e tem também o brigadeiro de colher.

Tem isso e, logo mais, vai ter você meu sobrinho. Tem uma gente pra chamar de nossa (família)! Tem dúvida não, amor da tia: venha ver como ela é gostosa!

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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