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Cotidiano

Crônica: Imperfeitinha

Nós mulheres somos socialmente impelidas a sermos perfeitas – do mesmo modo como meninos são estimulados a serem valentes, por exemplo

Publicado em 17 de Outubro de 2021 às 02:00

Públicado em 

17 out 2021 às 02:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Mulher corajosa
Desde cedo acho graça em ser imperfeita. Não me encaixo! Crédito: Nikita Buida/ Freepik
Há mais de vinte minutos o cursor pisca. Não sei bem por onde começar a dissecar essa ideia que me pinica. Ainda que nunca tenha sido apegada ao desejo de ser perita, especialmente hoje me sinto comprometida.
(Talvez isso tenha a ver com uma pequena crítica rolada que entrou por acidente no meu sapato semana passada.)
Acontece. Nós mulheres somos socialmente impelidas a sermos perfeitas – do mesmo modo como meninos são estimulados a serem valentes, por exemplo. E se por um lado a coragem denota masculinidade, por outro, a vontade de se arriscar tem muito pouco a ver com feminilidade... Aliás, pelo contrário – para aquelas que costumam correr riscos, sobram infames trocadilhos.
Pense bem, garotas não são treinadas para lidar com falhas. Simplesmente não lidamos bem com isso. Razão pela qual discretamente escondemos nosso insistente medo de errar. E foi perseguindo a “nota dez” que acidentalmente (ao longo dos séculos) nos tornamos cautelosas demais... Temerosas dos passos ousados, das roupas fora da moda e dos movimentos pouco calculados. Queremos ser boas demais.
Enquanto isso.... Os meninos seguiram se jogando, tentando, errando, acertando, falhando, arriscando, ousando, caindo e levantando. De modo que, muitas vezes literalmente, ficamos para trás.
Eles aprenderam a conviver com os erros, com a pressão e os riscos. E desde muito cedo entenderam que a vida não é perfeita – vale lembrar que em sendo meninos, é automática a perda do direito de chorar e a obrigatoriedade de “virar homem” o quanto antes – as bordoadas morais são constantes. (É, ninguém disse que o molde deles é melhor que o nosso, mas esse é outro papo).
Fato é que no jogo à Vera eles correm à vontade, vão e voltam, se arriscam, se jogam, passam a bola – na vida profissional e sobretudo na vida amorosa. Homens se candidatam a cargos ousados, arriscam cantadas absurdas, pulam a cerca sem culpa, e de uma hora para outra dominam um novo esporte. Engraçado, me lembrei agora de uma frase que meu primeiro marido sempre repetia: “O homem pode”. Ele dizia brincando – mas a mensagem ficava subentendida.
Apesar de ser “verdade”, eu nunca concordei, é claro. E batia o pé, fula da vida. Ele ria, jurava ser brincadeira. Mas eu insistia na briga. É... Desde cedo acho graça em ser imperfeita. Não me encaixo! A ser uma boneca agradecida e cautelosa em saia rodada e laço de fita, preferi os riscos de ser a boneca descabelada e corajosa que não pensa duas vezes em partir pra cima da vida.
Mas você sabe as bagunçadas/ousadas serão sempre julgadas, criticadas, erradas, esquisitas, ainda que boas ou bonitas. E as pauladas vêm da mídia, passando pela família, até seu próprio grupo de amigas. Mas isso não é importante. O que é lamentável sobre o julgamento é o esvaziamento da tentativa. Porque a cada nova crítica recebida, secretamente, a mulher (socialmente programada para ser adequada) recua um pouquinho.
Enfim, e é assim a que cultura come solta na manutenção da nossa imperfeita apatia.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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