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Cotidiano

Crônica: Flores raras

Mas nestes ciclos, nem tudo são flores. Há momentos escuros, outros gélidos e turbulentos. E não duvide, às vezes fica difícil domar nossas feras – elas comparecem e ferem

Publicado em 24 de Outubro de 2021 às 02:00

Públicado em 

24 out 2021 às 02:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Mulher dançando
Isso talvez explique a busca incessante pelo auto conhecimento. Crédito: Freepik
Prometo ser fonte.
Mas você saberia me amar na profundidade?
Na minha porção mais escura e mais densa?
Você saberia amar quando eu tropeço, quando enfio o pé no buraco?
Você saberia me amar quando eu for maior que você? Quando minha presença brilhar tanto que dói só de olhar? Você saberia?
Você saberia me amar quando minha boca ainda estiver pingando o sangue da minha última caçada? Você saberia me amar quando eu congelasse e destruísse as sementes que plantamos juntos? Você saberia esperar pelo retorno da minha Primavera? Você confiaria em mim, mesmo sabendo que não pode me domar? Você saberia me amar quando sou tudo aquilo que teme e admira ao mesmo tempo? Você saberia amar minhas constantes mudanças?
Ou você tem medo de que eu rapte sua alma...?
– Os puros de coração estão seguros, mas não existem garantias. Sou a própria natureza em forma de namorada. Não se engane. Não sou enfeite.
Só quanto não houver ninguém olhando, se abrirão minhas flores raras.
A primeira parte dessa crônica foi inspirada num longo poema de Alison Nappi, que diz que uma mulher selvagem nunca é uma namorada, mas um relacionamento com a natureza. Um reflexo de si mesmo.
Isso me acertou em cheio.
Ontem mesmo agi como uma tigresa. Avancei devagar, trabalhada no charme, depois ataquei e feri profundamente com palavras afiadas. (No período pré menstrual não é raro que aconteça). Pudera, pensa: pré-ovulação, ovulação, TPM, menstruação, e repete. Primavera, Verão, Outono, Inverno, e repete. Cheia, Minguante, Nova, Crescente, e repete. Baixa, subindo, alta, vazante, e repete. Afrodite, Deméter, Ártemis, Perséfone, e repete. Selvagem é o ciclo natural de toda fêmea, seja lua, seja maré, seja terra.
Mas nestes ciclos, nem tudo são flores. Há momentos escuros, outros gélidos e turbulentos. E não duvide, às vezes fica difícil domar nossas feras – elas comparecem e ferem. De modo que posso ser perigosa, mesmo quando não quero.
Isso talvez explique a busca incessante pelo auto conhecimento. Precioso é o saber que suporta essa nossa condição instintiva. Fundamental é o sentido para essa velha forma de sabedoria que por vezes parece oferecer perigo. Genuína deve ser a intimidade com a sombra de quatro patas que nos espreita. Legítimo é um contorno que afaste a má reputação que há muito nos cabe...
*Sobre isso, repetirei o quanto for preciso: "mil vezes ser uma mulher selvagem a ser um engano sobre o potencial feminino". Não me podo, não me privo, não me adapto, nem me escravizo para atender ao padrão patriarcal sugerido.
Pode chamar de louca – eu ouvi bruxa? – mas eu juro, viemos dançar pra lua!
Viemos nos perfumar, fertilizar, seduzir, desafiar, satisfazer e impor gentilmente nossas vontades. Viemos banhar, curar, amar, uivar, cantar e seguir a trilha que a alma decidir.
(Isso sim, é honrar ao Deus e à grande deusa, natureza).
Finalmente, se uma namorada selvagem, digo, se uma flor de perfume raro e perigosos espinhos, brotar bagunçando seu alinhado jardim, agradeça. Chegou sua vez de conhecer e se relacionar com a sua própria natureza.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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