É como se de repente o anjo da morte passasse pela cidade, como na história bíblica das dez pragas do Egito. Agora não se trata da ira divina, é claro, mas algo semelhante está acontecendo em
Barra de São Francisco, no Noroeste do Estado: na cidade, de 45 mil habitantes, o mês de março teve 40 mortes (até as 17h desta quarta-feira 31) pela Covid-19, um crescimento de 570% em relação a fevereiro, quando apenas sete pessoas morreram pela doença.
De maio de 2020, quando houve a primeira morte pelo coronavírus na cidade, até fevereiro de 2021, foram registradas 70 mortes. Isto significa que março teve 51,1% de aumento de mortes por Covid, em relação a todo o período da pandemia. Antes, o mês que tinha registrado o maior número de óbitos pelo coronavírus foi novembro, com 12 registros.
O ano de 2021 começou com Barra de São Francisco registrando 1.734 casos confirmados de Covid, mas o mês de janeiro terminou com 1984, um crescimento de 250 casos (14,4%) no mês. Fevereiro foi encerrado com 2.307 casos, aumento de 323 casos (16,3% em relação ao último dia do mês anterior). Março, porém, foi de explosão, terminando o mês com 3.210 casos confirmados de Covid, ou seja, 903 novos casos, um crescimento de 39,1%.
A pandemia reflete-se também no cemitério da cidade, embora muitas vítimas sejam levadas para ser sepultadas em distritos ou cidades onde nasceram, geralmente na própria região. De acordo com a administração do cemitério municipal, na sede, de março de 2020 a fevereiro de 2021 foram enterradas, em média, 25 pessoas por mês. O mês de março último terminou com 48 sepultamentos, a maioria vítimas de Covid. Um aumento de 92% no número de enterros em relação à média dos meses anteriores.
O primeiro foco de propagação da
Covid-19 na cidade foi o próprio Hospital Dr. Alceu Melgaço Filho, referência no atendimento da doença no município. Os dez primeiros casos ocorreram lá. No dia 28 de abril de 2020, uma funcionária da limpeza do hospital foi diagnosticada com o coronavírus. Na época se comentou que ela teria sido contaminada em contato com um funcionário de um banco. Diagnosticada, a mulher fez o teste e desobedeceu a quarentena imposta pelo médico, circulando na cidade.
Dois dias depois, outro servidor do hospital também testou positivo. A contaminação alcançou uma paciente de 73 anos, que estava internada na UTI do hospital e morreu no dia 6 de maio. Desde meados de março, o Estado entrou em quarentena, mas em Barra de São Francisco, registram os sites da cidade, era como se não houvesse perigo: quanto mais a doença avançava, mais as pessoas circulavam, muitas sem máscaras.
Quase metade das pessoas infectadas pelo vírus da Covid-19 em Barra de São Francisco estão na faixa de idade de até 39 anos, segundo o painel Covid. Os óbitos, entretanto, atingem os mais velhos, sendo 71% das pessoas acima de 60 anos. O secretário municipal de Saúde, Gustavo Lacerda, alerta, entretanto, que esse perfil mudou em março e a maioria das mortes foi de pessoas mais jovens.
O Hospital Dr. Alceu Melgaço Filho está com todos os 10 leitos de UTI ocupados há mais de 20 dias e com pacientes intubados em enfermaria, o que aumenta o risco de óbito, segundo Gustavo. Entre 180 e 190 pessoas são atendidas, diariamente, pela equipe da Secretaria Municipal de Saúde com suspeita da doença.
O
prefeito Enivaldo dos Anjos (PSD), que na semana passada decretou quarentena na cidade, renovou o decreto na segunda-feira (29), flexibilizou a abertura de supermercados, farmácias e oficinas mecânicas, mas manteve toque de recolher até o próximo domingo (4), quando será feita nova avaliação.
Na segunda-feira (5), está previsto o início de funcionamento do novo Centro de Atenção a Pacientes de Covid, no bairro Nova Barra, um prédio de 1,5 mil metros quadrados que sediou o polo local de EaD da Uniube (MG) e que foi reformado em tempo recorde de 72 horas.
Agora, os equipamentos estão sendo instalados.
Camas e colchões estão chegando todos os dias, resultado de doações, e entre os dias 7 e 14 chegam mais 50 camas hospitalares doadas pela Arcelor.