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Meio ano perdido

2020, o ano em que sobrevivemos e, talvez, aprendemos alguma lição

O que fizemos por aqui, por irresponsabilidade de um energúmeno, que continua agindo inconsequentemente quando manda invadir hospitais e fotografar supostos leitos vazios, foi o contrário. Continuar com o barco à deriva, sem rumo, é perder vidas

Públicado em 

22 jun 2020 às 05:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Ministério da Saúde dificulta publicidade a casos de coronavírus no Brasil
Coronavírus nos levou ao isolamento social Crédito: Tumisu/ Pixabay
Chegamos à metade do ano, praticamente perdido, pelo menos, para mim, pois não tenho procuração para falar em nome de ninguém. 2020 começou em janeiro, com as férias de verão, em que a maioria geralmente não trabalha; fevereiro foi carnaval e, como se diz por aqui, o ano só começaria mesmo em março.
Só que, neste ano, fevereiro e março já estavam contaminados pela pandemia do "maledetto", cujo nome nem quero mais pronunciar, pois estamos todos intoxicados de tanto o ouvirmos, e aí veio o que todo mundo já sabe: isolamento social, trancamento domiciliar, espirrar no cotovelo, lavar as mãos como nem Pilatos o fez, põe máscara, tira máscara, banho de álcool gel, Mandetta, Teich, o breve, e Pazuello, o desgeografado.
Só que o Brasil não é a Nova Zelândia, e nem a Itália, com quem pensamos ter mais afinidade, e o tal isolamento social não ocorreu de fato. Povo indisciplinado e rebelde, o brasileiro não fez o dever de casa como deveria. Resultado: Estamos reprovados. Depois de três meses parcialmente isolados, o vírus continua a se espalhar, cerca de 50 mil pessoas já morreram, um milhão oficialmente infectado, e mais três meses de sofrimento ainda deverão vir, no mínimo.
Mandetta estava certo, desde o primeiro pronunciamento: essa epidemia só arrefeceria a partir de setembro. Me lembro claramente do seu primeiro e impactante pronunciamento, em março, e mais um erro do capitão cloroquina que nos desgoverna foi retirá-lo do comando da operação no meio da tempestade. Todos os que são do mar, e também já fui marinheiro em outras encarnações, sabem. Quando a tormenta se avizinha, o melhor é ancorar o barco num porto seguro e esperá-la passar, custe o tempo que custar. Perdem-se algumas mercadorias, mas salvam-se as vidas.
O que fizemos por aqui, por irresponsabilidade de um energúmeno, que continua agindo inconsequentemente quando manda invadir hospitais e fotografar supostos leitos vazios, foi o contrário. Continuar com o barco à deriva, em meio à tempestade, sem rumo e sem direção, é perder vidas e a mercadoria.
Perdemos meio ano e o outro também parece estar comprometido. Não há condições de retornarem as aulas tão cedo, pois isso implicaria colocar em risco a vida de nossos filhos e de muita gente. Não há outra saída a não ser regularizar o ensino a distância e, infelizmente, mais uma vez, os maiores prejudicados serão os mais pobres, aqueles que não possuem internet em casa.
Essa epidemia nos trouxe essa triste lição, a de nos mostrar nossas terríveis diferenças sociais. O maior número de pessoas que morrem de Covid-19 ou de outras doenças decorrentes do coronavírus é o de pessoas pobres, que não possuem plano de saúde, não podem pagar exames particulares e não podem se prever a tempo, pois não têm recursos nem para se manter isoladas.
Enfim, 2020 ficará na história como o ano em que não vivemos, sobrevivemos, e aprendemos, se conseguirmos tirar alguma lição de todo esse infortúnio.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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