Enquanto milhares de pessoas morrem todos os dias e se avolumam as estatísticas das vidas que são perdidas em razão da inconsequência política de nossos governantes, em decorrência de ação ou de omissão, chegando os óbitos à casa dos 280 mil, em Brasília, membros dos 3 poderes e seus séquitos de assessores e seguidores continuam a bater cabeça, como que perdidos em uma guerra sem qualquer tipo de comando ou de compreensão da gravidade e da dimensão da responsabilidade que pesa sobre seus ombros e da qual a história haverá de lhes pedir conta.
A cegueira, a insensibilidade, a falta de lucidez e de compreensão mínima da realidade, em si mesma alarmante e de tal modo aterrorizante, parecem ter criado um estado de embotamento da capacidade intelectiva de alguns que, indiferentes à dor e às mortes, continuam a agir como se a República fosse um salão no qual a música continuasse a tocar freneticamente, ao tempo em que alguns se deliciam, bailando inebriados pelas delícias do poder.
Enquanto desfrutam dos “direitos” que foram amealhando, utilizando-se do poder de decidir sobre seus próprios direitos, benefícios e prerrogativas, foram paulatinamente se insensibilizando e deixando de sentir-se parte de um mesmo grupamento de homens e mulheres com iguais direitos e dignidade.
Crédulos de sua condição de primazia e preeminência sobre os demais mortais, que na planície lutam as lutas cotidianas pela sobrevivência, nossa classe política se sente imune às moléstias e mazelas que sobre os demais se abatem.
Enquanto morrem os miseráveis, seja de fome, seja de Covid, parcela significativa e representativa do poder se perde em discussões de projetos sem nenhuma relação com a maior crise sanitária que se abateu sobre o mundo e sobre o Brasil, de forma ainda mais grave, em decorrência do desgoverno que teima em ignorar a vida e a saúde, como direitos de cidadania, e os percebem como direitos de alguns que, por terem se apossado, ainda que ilegitimamente do poder, podem se apropriar das riquezas da nação usurpando os direitos de todos para ampliar seu arsenal de condições capazes de produzir uma felicidade à qual entendem que nem todos têm o direito de usufruir, mas que eles têm.
Enquanto gastam semanas, sem nenhuma pressa, discutindo os centavos a mais ou a menos a serem incorporados no auxílio emergencial a ser um dia destinado a garantir que os miseráveis sobrevivam um pouco mais, enquanto lhes servem de vassalos em suas propriedades, expropriando suas forças de trabalho ou os encarcerando em prisões insalubres, consomem os recursos públicos em fartas mesas regadas a vinhos que custam, uma garrafa apenas, o dobro do auxílio emergencial que julgaram suficiente para alimentar uma família.
O governo, enquanto prioriza e canaliza suas energias políticas para atender as bancadas da Bala, do Boi e da Bíblia, focado na esperança de apoio nas eleições de 2022, se esquece que, depois de ter perdido todas as chances de enfrentamento da pandemia com a vacinação em massa da população, agora está deixando passar a única alternativa possível de interromper a proliferação indiscriminada do vírus e de suas mutações.
Um lockdown nacional, comandado por um governo central, reconhecidamente, pela ciência, a única estratégia sanitária, nesse momento, em condições de obter um resultado eficaz que possa nos tirar do lugar de párias internacionais, interrompendo o ciclo de mortes e de mutações virais, precisa ser decretado de imediato.
Não há tempo para tentativas, por ensaio e erro, de reproduzirmos experiências exitosas segmentadas em decretos estaduais ou municipais que podem ou não ter força política de obtenção de sucesso. Uma crise dessa dimensão não se enfrenta com pulverização de poder pelos Estados e municípios e nem com troca de ministros. Qualquer que seja o ministro, o resultado será o mesmo.
O caminho único, e sabidamente eficaz para resistirmos seja à morte, seja ao medo que nos paralisa, é um comando central a dirigir a nação conclamando o povo a assumir sua responsabilidade solidária e coletiva para com todos. Enquanto aceitarmos, passivamente, que morram, em sua maioria, os pobres e as vidas que julgam merecer morrer, a insensibilidade e a indiferença persistirão.
O desmonte de nossas organizações da sociedade civil, engendrada no escopo político estratégico de um segmento das elites ainda atrasadas, incultas, egoístas e insensíveis, com vistas a retirada de direitossSociais, desarticulando e inibindo o poder de resistência da sociedade contra o arbítrio do Estado e a sanha insaciável do mercado, agora nos mostra seu poder destruidor. Não possui a sociedade força suficiente de articulação para defender-se nesse momento de crise, reivindicando seus direitos e lutando para preservar sua vida e saúde.
O lockdown por duas semanas, defendido por estudiosos das ciências e sustentado em razão de comprovação científica como única alternativa possível nesse momento de tanta gravidade e dor, no qual tantos morrem aos milhares, poderá sim, agravar nossa condição econômica, já tão precária, na qual a desigualdade social mostra sua face mais perversa. Entretanto, se é esta, como mostra comprovada, nossa única alternativa de sobrevivência, não há porque temer adotá-la.
Mais cedo poderemos recuperar a economia e o faremos, talvez, mais cientes de que o modelo que vimos abraçando e defendendo, poderá de novo nos igualar, na porta dos hospitais, quando na disputa por um leito na UTI, de um hospital privado, a central de vagas do Sistema Único de Saúde, o destinar a um miserável morador de rua, deixando morrer à porta, sem ar e sem oxigênio o morador do bairro mais abastado e sofisticado da cidade.
Enquanto a ignorância grassar em nosso país e aqueles que detêm o poder e os que não o detêm, mas foram por ele cooptados, continuarem a ignorar que a morte nos iguala a todos e que o vírus é altamente democrático apesar da política e da economia não o serem, continuaremos a ver pessoas morrendo. Enquanto alguns defendem o direito de ir e vir, de abrirem suas comércios, e de frequentarem cassinos e restaurantes de luxo, postando fotos nas redes sociais, paramentados para suas academias ou festas de luxo, sem pensarem que esse direito não pode ser exercido no cemitério da cidade, que nos espera a todos, com destino idêntico, de nos tornarmos pó.
O direito à vida não pode ser mitigado por medo dos governantes de se encontrarem com a urnas e nem pelo respeito ao prazer doentio e perverso daqueles que sustentam políticas públicas demonstrativas de insanidade e de egoísmo. Não há mais leitos de UTI no país. Não há mais profissionais preparados para abri-los. Médicos, enfermeiros e todos os demais que atuam nesses serviços especializados estão esgotados e em risco real de sucumbirem seja física, seja emocionalmente.
Não há dinheiro capaz de formar e forjar um profissional com esse tipo de especialização em menos de dois anos. Até lá já teremos sentido o resultado de nossa política de desvalorização da vida humana. Não há economia sem vidas. Os ricos não estão protegidos em sua riqueza. Os países comandados por um projeto de economia sensível aos ditames da ciência e dos direitos humanos, com seus princípios de igualdade e solidariedade social, poderão sair com menos danos desse caos e dessa tempestade na qual estamos todos mergulhados.
Alguns de nós a bordo de um transatlântico ou um iate de luxo e outros a bordo de um pequeno e frágil barco, mas, todos, dentro da mesma tempestade e, no Brasil, tendo no comando das embarcações o mesmo Capitão.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta