ASSINE
Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

República em festa enquanto centenas morrem todos os dias no Brasil

Muitos de nossos representantes em Brasília permanecem se regozijando na dor e na miséria do povo, utilizando-se de estratégias perversas para a consecução de seus próprios interesses

Publicado em 02/03/2021 às 02h00
Arthur Lira é levantado por colegas na comemoração pela vitória na Câmara
A pandemia escancarou a vileza de nossos representantes. Crédito: Cleia Viana/ Câmara dos Deputados

Enquanto centenas de pessoas continuam a morrer todos os dias no Brasil, ampliando as estatísticas que nos colocam nos piores patamares mundiais de morte por Covid-19, muitos de nossos representantes em Brasília permanecem se regozijando na dor e na miséria do povo, utilizando-se de estratégias perversas para a consecução de seus próprios interesses, deixando evidenciada a pequenez de caráter, sem qualquer pudor ou tentativa de esconder suas frágeis e reprováveis moralidades.

Assentados na inércia de uma sociedade que não consegue sair de seu estado de torpor letárgico, como se hipnotizada estivesse ou paralisada por uma magia coletiva que a impede de reagir, nossos políticos de plantão, capitaneados por seu comandante maior, também ele subordinado ao verdadeiro comandante de nossas vontades e desígnios, o capital, continuam a festejar, em esplendoroso gozo, enquanto o vírus destruidor espalha a morte, transformando em luto nossos dias e nos tirando toda e qualquer possibilidade de sonhar com o futuro.

A esperança, teimosamente, tenta resistir, enquanto, nos estertores da morte física e emocional, assistimos à República em festa, nos salões apinhados de homens de ternos requintados, acompanhados de mulheres elegantemente vestidas com tailleurs bem cortados e salto alto, comemorando, aglomerados, todos sem máscaras, como a desafiar a ordem e a lei, que parecem servir apenas para proteger os amigos, todos eles detentores do divino direito de se divertir, qualquer que seja o motivo e a oportunidade.

Para os inimigos, os rigores da lei. Para os pobres, miseráveis e desprotegidos de toda ordem, uma pequena e nebulosa expectativa, distante, a ser ainda objeto de longas e difíceis tratativas, complexas promessas de um auxílio emergencial de R$200, carregadas do cinismo típico de quem afirma que esse montante pode quebrar a Nação.

Arthur Lira, o novo presidente da Câmara dos Deputados, eleito com 302 votos, e com um discurso de defesa da vacinação e de busca de equilíbrio para as contas públicas, em uma concorrida festa da vitória, na qual circularam e se aglomeraram cerca de 300 convidados ilustres, deputados, diversos ministros e personalidades da República, despidos de máscaras e de pudor ético, em gozo coletivo e escárnio com a dor e a morte de tantos, desprezaram as normas sanitárias e a legislação vigente.

Assim como na posse de ministros do STF e do governo federal, sentiram-se, todos, superiores a tudo e a todos. Em algumas dessas festas, comeram e se deliciaram com vinhos e uísques com preços bem acima dos minguados R$ 200 que governo e deputados resistem em liberar para a sobrevivência de tantos.

No caso da festa da vitória de Arthur Lira, adversários recentes, agora aliados do novo presidente da Câmara, também participaram das comemorações mostrando que há algo de podre no “reino” do Brasil.

A pandemia escancarou a vileza de nossos representantes. Não sendo importunados, continuam a transitar pelos salões ao som de músicas que embalam suas consciências torpes, pervertidas pelos prazeres emanados do poder, agora, cada vez mais comprometidos com a necropolítica implementada pelo governo federal, que se delicia e goza com a morte de tantos, não mais apenas em razão dos dividendos monetários que dela resultam, mas também de um gozo puro, advindo de um legítimo “necrogozo”, descomprometido com toda e qualquer necessidade de justificativa, até porque o gozo da morte alheia deve provocar um êxtase que com nada se compara.

Cegos, ensurdecidos, insensíveis e legitimados por seu líder maior, ministros, governadores, deputados e elites insensíveis de todas as instituições e origens, continuam a bailar e a gozar, alimentados por finos espumantes servidos em taças de cristal, enquanto na periferia a plebe se desespera por um pouco de comida para evitar uma morte que, se não vier da fome, virá certamente da Covid, que poderia ter sido evitada se Pazuello, que se divertia em festa na casa do governador de Brasília, tivesse tido “tempo” e “vontade” para providenciar as vacinas que teima em prometer sem nunca se dispor a comprar.

No deleite e no desprezo com a morte de mais de 250 mil pessoas e o sofrimento de milhares de familiares que perderam seus amados; na desesperança de um futuro que se mostra tão sombrio e nebuloso; na vergonha que nos causa assistir, imobilizados, ao escárnio de uma corte que, em uma pulsão incompreensível para nós, simples mortais, se satisfaz de forma repugnante com a morte , uma explicação se faz necessária.

Explicação significada talvez pelas mentes brilhantes de nossos intelectuais lacanianos que estão a nos deixar órfãos de suas reflexões enigmáticas, mas indispensáveis diante do estado de gozo permanente que parece ter tomado conta da República ou de alguns de seus representantes maiores.

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.