Enquanto comemorávamos, no último dia 11 de fevereiro o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, data instituída com o objetivo de valorizar a participação das mulheres na ciência, destacando e reconhecendo suas contribuições ao desenvolvimento científico, assistíamos, ao mesmo tempo, com espanto, as declarações infelizes do presidente do Comitê Olímpico de Tóquio, que com afirmações sexistas, criticava as mulheres, acusando-as de serem competitivas e falarem demais durante as reuniões, o que lhe causava profunda irritação.
As reações imediatas e robustas de mulheres em todo o mundo, de instituições e de representantes das empresas patrocinadoras de um dos mais importantes, conhecidos, esperados e lucrativos eventos internacionais, demonstrando o repúdio à vergonhosa e indecorosa manifestação de machismo e misoginia que tornavam indigno ao cargo o presidente do Comitê Olímpico Internacional e que acarretaram, inicialmente, um falso pedido de desculpas e posteriormente um afastamento definitivo, são sinais evidentes de que o mundo passa por transformações, e isso é inegável.
Entretanto, ao mesmo tempo em que nos alegramos com esses aparentemente relevantes sinais indicativos de que a luta pela equidade de gênero vem sendo vitoriosa, nos deparamos com inquestionáveis retrocessos que indicam que a reação a esses avanços e à tentativa de manutenção do status quo masculino, no qual o poder patriarcal, do macho que se sente no direito de silenciar mulheres e eliminá-las, se preciso for, se organiza de forma a intimidar mulheres que se ponham a reivindicar o lugar que lhes é por direito.
A renúncia à presidência do Comitê Olímpico de Tóquio, um dos mais desejados e competitivos cargos a povoar o imaginário masculino, seja pela representação simbólica do poder, seja pelo real poder econômico que o comando dessa potente fábrica de produzir dólares é capaz de ensejar, certamente terá ocasionado profunda angústia, dor e arrependimento em Yoshiro Mori.
Interessante observar, entretanto, que o pedido de desculpas somente foi pronunciado após as manifestações acaloradas de desagrado público se espalharem pelo mundo e das ameaças concretas de suspensão de patrocínios. Isso nos autoriza cogitar que o arrependimento real, fruto do reconhecimento do erro, tendo em vista a injusta e desrespeitosa manifestação para com as mulheres, de fato, não ocorreu.
O arrependimento terá sido, tão somente, pelas perdas advindas das palavras irresponsáveis, levianas, inconsequentes, inadequadas e pequenas demais para serem pronunciadas por alguém com tamanha responsabilidade de representar sua nação.
A estratégia de silenciar mulheres, seja pelo ocultamento de suas inteligências, seja pela tentativa tosca de diminuir ou ridicularizar o que fazem e dizem, seja pelo impedimento real de suas manifestações, seja pela prática inibitória de emudecer pelo temor da desconstrução discursiva, seja pela morte quando nenhuma das outras práticas se mostram eficazes, tem sido intensificada em nossos dias.
As estatísticas mostram que o feminicídio avança no país. As mortes de mulheres pelo simples fato de serem mulheres se apresentam cada vez mais com requintes de crueldade. Parece insuportável aos homens que as mulheres pensem, desejem, tenham autonomia e se percebam independentes deles.
A dimensão da violência se apresenta diretamente proporcional ao sentimento de impotência que parece tomar conta dos homens diante do avanço e da independência feminina. O sucesso das mulheres em suas carreiras e a capacidade de existirem a partir de suas próprias vontades parecem tirar deles qualquer racionalidade que os permita refletir acerca dos riscos de suas atitudes.
Mulheres são altamente perigosas por suas múltiplas capacidades, habilidades e competências desenvolvidas na adversidade.
Mulheres cientistas podem revolucionar o mundo. Expandiram sua sensibilidade e capacidade de perceber aquilo que não está evidente ao olhar superficial daqueles que estão condicionados ao domínio da natureza e ao controle das pessoas e das instituições.
Foram aprendendo no cotidiano das lutas, das desigualdades, das exclusões, dos deméritos com que foram tratadas, nos silenciamentos forçados e nas violências simbólicas ou reais, a reinventar o mundo, na medida em que tiveram que resistir para sobreviver.
Mulheres cientistas, professoras, pedreiras, engenheiras, físicas nucleares, advogadas, trabalhadoras rurais, poetisas ou em qualquer outra ocupação que para si escolham, poderão fazer a diferença, ressignificando o mundo, as profissões e os modos de fazer as coisas, talvez consumindo menos, cuidando mais da natureza, das relações e podendo vivenciar uma existência mais plena, humanizada, quem sabe com mais poesia.
Estão mais preparadas para ouvir, para ajudar, para administrar em tempos de adversidade. Talvez até mais preparadas para amar compreendendo o amor em uma dimensão mais subjetiva, transcendental, do que meramente física, mais compreensiva da necessidade da autonomia sua e do outro do que de práticas de coexistência violadoras de liberdades.
Há uma cultura solidamente entranhada nas mentes, nos corações e nas instituições que é profundamente dificultadora do alcance da equidade de gênero para que se viva um mundo onde reine mais paz e justiça para que mulheres e homens possam se sentir plenos, potentes e felizes, sem que para isso seja necessário subjugar, humilhar, silenciar, ocultar e matar.
Não há mais espaço em nossos dias para “irritações” sexistas e nem para discursos religiosos que pregam a submissão feminina baseados em uma hermenêutica de manutenção dos interesses patriarcais que por séculos foram alimentados sem serem questionados.
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