Assustados com a pandemia e diante dos riscos iminentes de que fôssemos contaminados pelo assustador vírus que se espalhou pelo mundo de forma rápida e capilarizada, muitos de nós, possuidores de chácaras, sítios ou fazendas, apressamo-nos a neles buscar refúgio, transformando-os em nossas redomas protetoras, sem analisar o que, de fato, isso poderia significar para nossas vidas, para as vidas de nossos filhos ou para a sociedade.
Passados 12 meses, o que a princípio parecia temporário começa a se delinear de forma mais límpida como uma possibilidade concreta de que o futuro poderá nos “surpreender’’ com novas e sistemáticas pandemias, em uma assustadora antevisão de um amanhã que se avizinha ainda hermético, mas já, de alguma forma, inibindo os sonhos que vínhamos livremente sonhando, alinhavados em projetos de liberdade, autonomia, prosperidade e felicidade.
Planos, ideações de conquistas, novidades, sucessos, viagens, prazeres e atrações irresistíveis a nos convidar a lutar e a construir um futuro tão cheio de emoções foram se desmanchando no ar. Como se não houvesse amanhã ou como se o futuro se apresentasse agora cheio de dúvidas, incertezas, com cheiro de morte, talvez, ou de prisão continuada, sob a designação de isolamento, já que aparentemente impossível nos protegermos, seja das novas cepas, seja dos transformados e mutantes vírus que chegam para nos mostrar a necessidade de sermos menos intolerantes, arrogantes, consumidores insaciáveis, autocentrados, autorreferentes e de um egonarcisismo incapaz de enxergar o outro, a não ser como ponte para o alcance de nossos exclusivos interesses.
A natureza - com sua exuberância verde de múltiplas tonalidades, cheia de pássaros a voar livres, em si mesmos frágeis, mas carregados de alegres trinados e alforriados das prisões do tempo e dos compromissos de um trabalho infindável, que nos encaminha inexoravelmente para a morte, aprisionados em salas climatizadas, agora, mais do que nunca - se apresenta provocativa, convidando a reflexões em diálogos internos, frutos de meditações nunca antes feitas, seja por falta de tempo, seja por incapacidade de ouvir o silêncio e refletir sobre o que ele tem a nos dizer.
Uma borboleta, caminhando leve e lentamente sobre a mão aberta e imóvel de uma criança encantada com sua beleza, pode ser a chave a girar a História.
A natureza, utilizada como fonte inesgotável de recursos a saciar nossos desejos mais egoístas de acumulação de bens, que nos diferenciassem dos outros mortais que menos oportunidades do que nós tiveram, agora se apresenta empobrecida e necessitada de tantos reparos que não somos capazes ou não temos forças para fazer.
Na beleza singela, delicada e ao mesmo tempo potente da natureza que se recupera com a chuva que cai, do mato que cresce sem ser plantado, dos ninhos de beija-flores que se multiplicam pelas árvores, dos peixes que nadam e crescem nos lagos sem receber ração carregada de hormônio, comendo apenas dos frutos que caem na água, somos convidados a pensar na necessária urgência de restaurar a relação metabólica do homem com a natureza.
Do pé no chão, do ovo colhido no ninho, das brincadeiras no galinheiro, dos abraços nos pequenos bezerrinhos que aguardam ser amamentados pela mãe, da goiaba e da jabuticaba colhida no pé, da casinha na árvore feita com seu privilegiado observatório da mata, da água bebida na fonte que precisa ser preservada, há um mundo carregado de aprendizados que não estão nos livros.
A sabedoria, para além do conhecimento, é um exercício cotidiano de treinar o olhar e sensibilizar as emoções, permitindo que se enxergue para além daquilo que se apresenta aos olhos.
A fuga dos espaços de aglomeração e a luta contra o vírus podem representar, para alguns, um retorno às suas origens rurais ou uma aproximação com as suas recentes afinidades com a natureza. Para outros, porém, podem representar a compreensão exata da necessária luta política e econômica que precisa ser travada contra o consumo desenfreado, alimentado por um capitalismo insaciável, que destrói a natureza, queimando florestas, poluindo rios, abrindo crateras que um dia derramarão sua lama, destruindo as cidades, a natureza, a cultura, os homens, as mulheres, as crianças, os peixes e toda a vida que teimar em resistir aos seus avanços.
A borboleta, que caminha devagar nos braços de uma criança encantada com sua delicada beleza, poderá vir a ser, tão somente, um conto de fadas escrito no futuro por alguém que, de forma nostálgica, traz na memória o doce sorriso de um netinho amado que ainda não perdeu sua pueril inocência.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta