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Estilo de vida

Aprendemos mais sobre a vida com a natureza do que grudados em celulares

Caros leitores, em época de campanha eleitoral, previnam-se, pois a rede abunda de promessas vãs e discursos vazios

Públicado em 

26 out 2020 às 05:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Meio Ambiente, floresta, natureza
"Passo a maior parte do tempo em meu sítio", relata cronista Crédito: Pixabay
Encontro um amigo, que não via desde o início da pandemia, e ele me pergunta como estou vivendo nestes tempos de reclusão e de distanciamento social. Disse-lhe que passo a maior parte do tempo em meu sítio, em Domingos Martins. Ele me pergunta se instalei lá minha estação de trabalho. Para surpresa dele, disse-lhe que lá não pega internet, nem telefone e que minhas estações de trabalho são o galinheiro, a horta, o curral, o canil, o pomar, os pastos, ou seja, para onde olhe, tem serviço.
Em alguns momentos, leio, vejo TV e, à noite, eu e a esposa tomamos vinho e conversamos sobre o que fizemos durante o dia, sobre tudo e sobre nada, papo iniciado há 45 anos e que ainda temos prazer em cultivar. Quando desço à cidade, acesso a internet, vejo o que rola nas redes sociais, me comunico com os filhos, fico sabendo dos netos. Ou seja, não estou desligado do mundo, mas também não estou preso às redes sociais, às suas futilidades, ódios e rixas ideológicas.
Não vejo sentido em ficar sabendo o que meu ex-colega come todos os dias, o que fazem parentes distantes em suas rotinas e muito menos ficar compartilhando imagens de pânico diante da peste que ronda ou de otimismo em todas as datas do calendário. Para nos prender a essa rede que nos aprisiona, o FB criou datas para tudo, nos lembra os aniversários de todos os nossos amigos virtuais e assim passamos vinte e quatro horas por dia dando parabéns, desejando felicidades a quem não vemos há anos, o que nos toma muito tempo.
Prefiro ficar conectado com a natureza e com tudo que observo à minha volta. Agora, por exemplo, estou preocupado com as andorinhas, que ainda não vieram, como fazem, religiosamente, todos os anos, em setembro. Elas chegam, timidamente, aos pares, fazem seus ninhos nos telhados das casas, põem seus ovos, criam seus filhotes, e, quando termina o verão, voam em bando sabe Deus pra onde. Pois já estamos em final de outubro e até agora não apareceu nenhuma pra ‘fazer o verão’, como se dizia outrora. Isso pode ser um sinal inequívoco de mudança na natureza.
E as tanajuras? Se lembram delas? Saíam após as chuvas da primavera. Nunca mais as vi e me pergunto, assustado: que fim levaram? Também estou preocupado com o desaparecimento dos macacos. Há três anos, eles quase foram exterminados pela febre amarela, sobretudo os maiores, tipo bugios ou barbados, antes tão comuns em nossas montanhas.
Todos nós que convivíamos com eles nos acostumamos com seus roncos, anunciando ou pedindo chuva, conforme dizia a tradição local. Pois morreram todos ou quase todos. Nunca mais ouvimos o ronco dos barbados ou os vimos, aos bandos, bem próximos de nós. Nesta época, era comum vê-los descer das árvores e ir quebrar nos joelhos o milho que plantávamos para comer verde ou fazer papa. Nem ligávamos, pois a alegria de vê-los se alimentarem era maior do que o prejuízo que nos davam.
Também não vejo mais as abelhas, nem as preguiças que comiam os brotos das embaúbas. Um e outro tatu ainda aparece para revirar as plantas da horta e comer as minhocas embaixo da terra, mas não são tantos como há vinte anos. E nem as pacas que roíam os caroços de abacates. O que aumentou foi a presença dos jacus, pois plantei muitos abacateiros que os alimentam em boa parte do ano. Mas até os canários diminuíram e acredito a causa ser os venenos que se jogam nos pastos. Ao se alimentar da semente de capim, eles se intoxicam e morrem.
Caros leitores, podem crer, observando a natureza, aprendemos mais sobre a vida e as suas relações do que ficar grudado o tempo todo em celulares, lendo e repassando bobagens. Agora, então, em época de campanha eleitoral, previnam-se, pois a rede abunda de promessas vãs e discursos vazios.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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