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É bacharel em Filosofia. Com um olhar sempre atento para as ruas, reflete sobre as perspectivas de cidadania diante dos problemas mais visíveis da Grande Vitória

O negacionismo raiz e a marcha da insensatez no ES

Protestos deste domingo (14) nas ruas da Grande Vitória deixam claro o desrespeito à vida, ao luto e à dor dos capixabas que perderam seus entes queridos

Publicado em 16/03/2021 às 02h00
Manifestação pró Bolsonaro na Praça do Papa
Protesto deixou claro o convite para aglomerar. Crédito: Fernando Madeira

Duas posturas marcaram os protestos deste domingo (14) nas ruas da Grande Vitória. Uma, deixa claro o convite para aglomerar, se encontrar aos montes e milhares. Fica o flagrante de um claro desrespeito à vida, ao luto e à dor dos capixabas que perderam seus entes queridos.

Mas diante disso alguém poderia argumentar que estamos numa democracia. E neste sentido, a liberdade de manifestação não poderia ser impedida de forma alguma. A fala do governador Renato Casagrande em relação à manifestação a coloca como “legítima”. Até que se fosse em outro momento caberia; não em uma pandemia com um número grande de mortes. Não tem nada de legítimo nisso.

Se fosse assim, outros grupos poderiam se encontrar em praça pública para cantar, como eles fizeram. Ouvir hinos, como grupos religiosos querem fazer e não podem. Se fosse legítima, qualquer outro grupo fantasiado, com símbolos nas mãos, poderia aglomerar em praça pública, como os blocos de carnaval. Não, não tem nada de legítimo nesta manifestação.

Apesar de que a palavra “legítimo”, usada no texto do governador, tem conotação retórica. Da forma como foi escrita serve para mostrar que este tipo de protesto não tem nada de legítimo. Até por que o próprio texto do Twitter diz se tratar de protesto de “manifestantes que negam os efeitos do coronavírus”.

Portanto, trata-se de uma manifestação negacionista, carregada de interesse ideológico e partidário. Ela visa, segundo os discursos e posturas dos participantes e a fala do governador, ir “contra medidas que tomamos para frear a transmissão e salvarmos vidas”.

Ora, será que pode ser legítima qualquer manifestação que não respeita as pessoas, a dor, as perdas e o mínimo de regras estabelecidas para restabelecer a normalidade social? A outra postura, se dirigir em comboio até a porta da casa de uma senhora de 88 anos, mãe do governador, “com atitudes agressivas”. Esta ação revela o quanto grupos radicais e fundamentalistas são perigosos para a vida em sociedade. Levados pelo rito radical extremo, embalados por discursos de ódio, podem perder a noção do bom senso.

Ainda mais estes, de caráter nacionalista que atuam em polos extremos do espectro político aceitável numa democracia. Estes grupos fazem a escolha de negar a realidade como forma de escapar de uma verdade que os incomodam. Eles não querem aceitar a realidade empiricamente verificável. E fazem tudo para agradar um líder maior que comanda as suas vidas.

A grande questão que fica é o que dá o direito a estes cidadãos, defensores do governo do presidente Bolsonaro, se organizar desta forma, a ponto de colocar em risco toda a sociedade, incomodar as pessoas e atacar familiares do governador? Nada. Mas eles seguem o líder.

A origem de tudo é a atitude do presidente Bolsonaro. O início se deu em março de 2020 com a primeira manifestação em Brasília, que teve a participação e apoio do próprio presidente. De lá pra cá, o negacionismo raiz tem levado estes grupos radicais aliados do presidente para as ruas, contra as medidas dos governadores.

A pergunta que fica é: o que será feito para investigar a ação destes grupos? Pois se nada for feito, vai virar algo normal assistirmos a casa de políticos e cidadãos que pensam diferente serem atacadas.

A sociedade capixaba não pode aceitar qualquer movimento extremista que coloque a vida das pessoas em risco. A forma como se aglomeram é uma afronta a quem se cuida e um desrespeito os que sofrem e aos familiares dos mortos.

Ora, se a inteligência do governador passou informação sobre a sua localização, em um domingo de descanso, para grupos fundamentalistas de extrema direita, algo está muito errado. Isso também merece uma investigação. É importante agir para conter o avanço destes grupos em terras capixabas antes que seja tarde.

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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