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Saúde

Profissionais da Enfermagem precisam de salários justos e dignidade

Esses profissionais ganham salários indignos que deveriam corar de vergonha gestores, juristas, parlamentares e a todos nós que aceitamos sermos cuidados por pessoas que vivem em condições tão adversas

Publicado em 13 de Abril de 2020 às 05:00

Públicado em 

13 abr 2020 às 05:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Médicos estão sendo enviados para ajudar no combate ao novo coronavírus
Enfermeiros na linha de frente contra o coronavírus Crédito: Ashkan Forouzani/ Unsplash
A pandemia que assola o planeta, e o Brasil em particular, escancarou a realidade cruel que afeta toda uma categoria profissional que deveria ser tratada com distinção, nobreza, respeito, consideração e dignidade e, ao invés disso, é relegada à condição de subemprego, cidadania periférica e condições de trabalho que colocam em risco suas vidas, as de seus familiares e também as nossas próprias vidas, já que, em algum momento, poderemos ser por eles cuidados, sem que deles tenhamos cuidado antes, oferecendo o mínimo existencial para o exercício digno de uma profissão com alta carga de essencialidade.
Composta em sua maioria por mulheres (85,1%) com todos os condicionantes e cargas adicionais por elas vivenciadas, a Enfermagem amarga salários aviltantes. A grande maioria de enfermeiros e técnicos ganha entre um e dois salários mínimos, vivendo submetida a um meio ambiente de trabalho que coloca em risco sua saúde e vida. Excepcionalidades salariais, e elas existem, não compõem a realidade brasileira e não podem ser utilizadas como representativas para justificar e enganar a opinião pública.
Tendo sobre eles a alta responsabilidade de cuidar de nossa saúde, garantindo as condições básicas para a nossa sobrevivência, esses profissionais ganham salários indignos que deveriam corar de vergonha gestores, juristas, parlamentares e a todos nós que aceitamos sermos cuidados por pessoas que vivem em condições tão adversas.
Só nos preocupamos hoje com a falta de máscaras, luvas e capotes para eles porque a pandemia coloca em risco direto a nossa própria vida. Isso é uma demonstração clara de nosso egoísmo, autocentrado e autorreferente. Eles sempre viveram assim, reivindicando condições de trabalho sem que déssemos ouvidos às centenas de denúncias dos Conselhos Regionais e Federal de Enfermagem.
Não foi a pandemia que ocasionou essa condição indigna e vexatória. Ela apenas desnudou algo que, ao longo da história, nos negamos, por conveniência, a enxergar. Os enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem merecem ser objeto de estudos sérios no sentido de recomposição salarial, projetos de capacitação continuada, oferta de equipamentos de proteção individual em quantidade e qualidade suficientes para garantir a preservação de suas vidas e saúde.
O pagamento de adicional de insalubridade não pode ser justificativa para a não oferta de condições adequadas de trabalho.
A pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, importante inquérito coordenado pela professora Dra. Maria Helena Machado, em uma parceria do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e a Fiocruz, revela as condições adversas a que estão submetidos esses profissionais.
Há dores na corpo e na alma. Há violências de todas as naturezas, de assédio moral a sexual. Estudos da OIT (Organização Internacional do Trabalho) revelam os altos índices de violência e constrangimentos que afetam essas mulheres, em sua maioria, mas também aos homens que nela atuam.
Dos mais de 2 milhões de profissionais de Enfermagem registrados no Conselho Federal de Enfermagem, mais de 50% estão diretamente envolvidos nos cuidados relacionados à pandemia, qual seja, linha de frente do enfrentamento à Covid-19.
Não há democracia que se sustente na desigualdade abissal existente entre salários das diversas profissões, tanto daquelas que consideramos essenciais à sobrevivência da sociedade, quanto daquelas que são importantes apenas para manter nosso conforto e desejos de viver uma vida mais tranquila, cômoda e com maior bem-estar. É claro que todas as profissões são importantes e necessárias ao equilíbrio social, mas algumas são indispensáveis tendo em vista que não podem ser substituídas por nossos próprios esforços e dedicação.
Ainda que todas as profissões possam ser consideradas relevantes para o equilíbrio social, algumas encontram-se em condição de alta essencialidade, tendo em vista o caráter de excepcionalidade do serviço que prestam.
Há ciência no exercício da Enfermagem. São cálculos de medicamentos, manuseio de equipamentos altamente sofisticados, manipulações de corpos fragilizados, todos eles carregados de complexidades. São detalhes anatômicos que uma movimentação indevida pode levar ao óbito ou a lesões irreversíveis. São pessoas humanas totalmente entregues a profissionais dos quais se exige um alto grau de conhecimentos e refinamento técnico científico.
Não é uma questão de quantitativo, exército de reserva que se contrata em tempo de exceção e durante uma guerra ou uma pandemia, como a que estamos vivendo.
Não é uma questão de abrir edital de contratação e colocar para dentro dos serviços mais 100, 200 ou 1.000 profissionais. Não se abrem hospitais de campanha somente com estrutura física, macas e respiradores. O mais difícil são aqueles que darão vida aos hospitais e a Enfermagem representa mais de 80 % dos profissionais da saúde. Sem eles não há cuidado. Sem eles um hospital ou serviços de saúde não funcionam.
A formação de um profissional de Enfermagem não pode se dar a toque de caixa. Não se faz cursinho preparatório rápido como imaginam alguns. São estudos de anatomia, fisiologia, farmacologia, epidemiologia, saúde coletiva e tantas ciências que compõe a transdiciplinaridade da profissão.
A Organização Mundial de Saúde alerta que até 2030 teremos um déficit de 9 milhões de enfermeiros no mundo. Ainda que no Brasil exista um número considerável de profissionais de Enfermagem, eles estão concentrados nas regiões mais ricas do país, havendo grave carência em grande parte dos municípios de nosso país.
Acabamos de assistir, na imprensa, ao relato doloroso de um enfermeiro da Paraíba afirmando que recebe R$ 80 reais por plantão de 12 horas, totalizando, ao final do mês, 1 salário mínimo. Esse enfermeiro, que não guardamos o nome, por sua invisibilidade aceita e validada por nosso silêncio e conivência, está dormindo no terraço de casa, para não contaminar sua mãe, já que atuando na linha de frente do combate a uma pandemia que nos amedronta a todos e nos faz temer pelo futuro.
Enquanto ele ganha R$ 80 por um plantão, normalmente sem local adequado para descanso, a faixa de remuneração para um plantão médico varia entre R$ 1.000 a R$ 1.500 pelas mesmas 12 horas. O problema não é o ganho do profissional médico que deve ser adequadamente remunerado, mas o valor irrisório e desqualificador pago a um profissional de enfermagem.
Muitas profissões, sem os mesmos riscos e sacrifícios, com mais glamour, magnetismo e reconhecimento, proporcionam a seus exercentes salários mais justos e menos aviltantes.
A hora é de reflexão e correção de rota. Quem desejará passar 4 ou 5 anos em um curso superior de enfermagem ou 2 anos em um curso técnico de Enfermagem para viver o drama desse enfermeiro cujo relato nos envergonha e entristece?
Quem se disporá a adoecer e morrer ( 25% do pessoal da saúde está contaminado pelo coronavírus, segundo pesquisa feita pela UFRJ) por uma vocação ou por amor a uma sociedade que não lhe valoriza e remunera de maneira justa e não lhe fornece as condições de trabalho adequadas para exercer o seu mister?
Enfermagem agora. É hora de se posicionar. Direitos são conquistas que alcançamos nas lutas por reconhecimento em busca de cidadania plena.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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