Historicamente desprestigiados, invisibilizados e desconsiderados, pela maioria das pessoas em quase todo o mundo, os enfermeiros e as enfermeiras tornaram-se protagonistas em tempos de covid-19.
Diante da ausência de vacinas que possam prevenir o aparecimento dessa doença e de opções eficazes de natureza medicamentosa para enfrentá-la, e diante ainda da impotência que se abateu sobre nós e que nos faz reféns em nossas próprias casas, sem nenhuma garantia de que ficaremos de fora dos riscos do adoecimento, foram eles, os enfermeiros, chamados ao sacrifício.
Agora nos lembramos deles. Queremos homenageá-los e bater palmas, depois de tê-los tratado com descaso por toda a história. Na perspectiva utilitarista e usurpadora de dignidade, nós, hipocritamente, queremos elevá-los ao status de anjos.
Não há e não haverá tratamento em breve espaço de tempo. A ciência tem seus tempos lógicos para chegar a conclusões que nos possam dar segurança terapêutica.
Ainda que no desespero das possíveis mortes previsíveis, alguns queiram acelerar os processos de descoberta de novos medicamentos, nós não os teremos a tempo de utilizá-los nesta pandemia. O que nos resta, então?
Fora a fé em Deus, o que está na dependência de nossas crenças e consistências espirituais, restam-nos apenas duas opções: a primeira, a de ficarmos confinados em casa, evitando sermos contaminados e contribuindo para o “achatamento” da curva; e a segunda, a de torcer para que, em caso de sermos contaminados, nós, ou aqueles a quem amamos, possamos encontrar enfermeiros ainda vivos, com saúde e disposição para cuidar de nós com a força, a dedicação, a coragem e a competência necessárias para dar conta da nossa miserável condição de dependência e de saúde, quando a morte se apresenta como uma possibilidade concreta.
São milhares de mortos em todo o mundo e cada vez mais esses mortos se aproximam de nós, de nossas famílias e de nossos amigos. Eles têm nomes e endereços que começam a nos soar familiares.
Os enfermeiros, profissionais do cuidado por excelência, saem, assim, do lugar de invisibilidade e falta de reconhecimento ao qual estavam relegados para o lugar de atores principais de uma trágica história de pandemia que atinge a todos, de diferentes modos, em todos os lugares do mundo.
Tanto desprezo que tivemos por eles e agora precisamos deles mais do que de tudo. Quem cuidará de nós agora que não há medicamentos e tratamentos ultrassofisticados que nos possibilitem a cura?
Quem cuidará de nós quando esses profissionais, que deixamos com salários miseráveis, tendo que trabalhar em dois ou três empregos para sobreviver, entregarem os pontos, sem forças para continuar a labuta? Quando um deles se quedar doente ou sem forças, nós teremos lacunas de trabalhadores, não apenas em um hospital, mas em dois ou três. Os especialistas em saúde sabem que não há pessoal qualificado para reposição imediata. Profissionais sem a devida qualificação serão chamados a ocupar esses postos.
Quem cuidará de nós quando esses profissionais, que trabalham em equipes subdimensionadas, com tarefas superiores às possibilidades racionais de trabalho, sucumbirem em um cansaço físico e emocional de tal monta que não consigam mais atuar de forma a garantir um mínimo de segurança para os pacientes?
Quem cuidará de nós quando esses profissionais, submetidos a condições de trabalho irregulares, nas quais não são atendidos os requisitos mínimos de segurança para o trabalhador de saúde, com equipamentos de proteção individual em quantidade e qualidade adequadas, adoecerem devido às inúmeras doenças do trabalho?
Quem cuidará de nós quando revoltados por terem sido menosprezados, mitigados em seus Direitos Fundamentais ao trabalho digno e ao salário justo, nos acusarem de opressores e hipócritas, por exigirmos deles uma cota de sacrifícios superior aos limites humanos, dando em troca apenas palmas e homenagens, como se esses “anjos de branco” devessem trabalhar tão somente por vocação e por amor à causa.
Quem cuidará de nós quando esses profissionais do cuidado trouxerem à memória o desprezo com que foram tratados em suas greves por melhores salários e condições de trabalho?
Valorização e respeito se manifestam em salários justos e condições de trabalho adequadas e dignas. Quem cuidará de nós? Enfermagem agora!