No meio da pandemia, o fato político novo no Brasil é o ressurgimento de narrativas alternativas ao bolsonarismo. Os movimentos de defesa da democracia, dentre eles o “somos 70%”, apontam para a possibilidade de alianças com força política para chegarem em 2022 com capacidade para disputar com a narrativa bolsonarista.
A intuição e o talento de Jair Bolsonaro para lidar com as redes sociais o fazem parecer politicamente maior do que realmente é. Ele navega bem com o efeito de tribalização e polarização das redes sociais na política. Sabe pautar a agenda política do país. Embora ele represente entre 30% e 35% da população, o seu “controle” da agenda política o faz parecer o líder de uma força hegemônica. Mas não é. Vem daí a simbologia do movimento “somos 70%”. Ajuda a acordar este Brasil dos 70%.
As oposições estavam catatônicas e divididas. A defesa da democracia lhes deu uma bandeira que pode unir. É um começo. Mas ainda é pouco. O centro democrático e as esquerdas democráticas precisam ainda confluir, em 2022, para uma coalizão entre moderados e progressistas. Não será fácil.
Agora, as eleições de novembro já estão provocando formação de alianças que podem prosperar para 2022. Principalmente nas 26 capitais e nas outras 70 cidades com mais de 200 mil eleitores. 38% dos eleitores (54,4 milhões) concentram-se nestas 96 cidades. O fim das coligações e a cláusula crescente de barreira induzem à fusão entre partidos. É um estímulo à configuração de coalizões.
Mas as narrativas de oposição ao bolsonarismo precisam ganhar consistência e engajamento para mobilizar a sociedade. Para início de conversa, a discussão concreta de valores deve estar no centro das narrativas alternativas. Como materializar, em forma de políticas públicas, os valores da igualdade & justiça, da democracia & liberdade, e da comunidade & solidariedade.
Depois da virada do pêndulo político para o populismo de direita – aqui e acolá -, a pandemia está fazendo ressurgir pautas moderadas e progressistas mundo afora. Ela colocou ainda mais à vista os problemas das desigualdades; das mudanças climáticas; da regressão da prosperidade; das injustiças identitárias; das ameaças à liberdade; e do individualismo possessivo. São alicerces da corrosão da solidariedade e da qualidade de vida. Exacerbam conflitos sociais, regionais e identitários. A narrativa bolsonarista não dá conta desta problemática, apesar de parecer hegemônica.
O fio desencapado da possível coalizão no espectro da esquerda ao centro democrático é o retorno de Lula à retórica de isolamento dos primórdios do PT. Maria Hermínia Tavares lembra que a retórica da recusa aos “pactos pelo alto” não tem “a amplitude necessária para afastar do horizonte o pesadelo da extrema direita”. Esse seria, para ela, “um espectro a rondar o PT”.