Brasília está caindo na real. O sincericídio de Paulo Guedes mostrou que o rei está nu. Está no ar um sonoro ultimátum. No cabe todo mundo debaixo do cobertor do orçamento da União e do pacto de poder e divisão do bolo. É incontornável a explosão do conflito distributivo. A tragédia da pandemia expôs as mazelas da pobreza e das desigualdades, com um exército de invisíveis e desempregados. É frágil o arranjo de poder e governança em vigor no país.
Brasília está num beco sem saída. Tem as urgências da pandemia e as emergências da pós-pandemia. Tudo junto e misturado. Ou o poder incumbente acerta a agenda e o pacto de poder, ou o país explode ali na frente. Alguém tem dúvida que o término abrupto do auxílio emergencial poderá causar mais anomia e mais violência? São quase 100 milhões de brasileiros, entre “invisíveis” e desempregados.
Escolhas de Sofia: o trilema da saúde, da economia e do pacto de poder com as corporações civis e militares e com o mercado financeiro. Escolhas entre cortes de gastos; aumentos de tributos; aumentos de gastos; emissão de dívidas e emissão de moeda. Alguém já encontrou a fórmula para tributar a renda das gigantes digitais aqui no país?
A pandemia força Brasília a acertar as contas com o Brasil. Não tem jeito. Não dá mais para empurrar com a barriga e “fugir para frente”, com a velha tática da conciliação das elites, tornada possível nos últimos 40 anos com aumento da carga tributária e do endividamento. Chegou a hora de enfrentar o conflito de interesses e refazer o pacto de poder. Entregar os anéis para salvar os dedos.
Jair Bolsonaro tem duas armas apontadas para ele: o impeachment e a explosão dos invisíveis. O Congresso Nacional não resiste ao barulho das ruas e das redes. As castas das corporações civis e militares, que estão no comando, não resistirão a um cenário de “default” do Brasil e de “shutdown” do governo. O mercado financeiro teme outra crise sistêmica. Tudo somado, é hora de entregar os anéis.
O Estado brasileiro quebrou e se tornou injusto e ineficaz. Neste caldeirão, os Três Poderes da República; os entes da federação; o mercado; e a sociedade civil, precisam encontrar saídas para pactuar uma agenda e dividir a conta. É a lei da sobrevivência.
Alguém tem dúvida que a dívida pública poderá escalar a marca de 110% do PIB e que este endividamento já comprometeu as próximas gerações? O que ainda não sabemos é como esta conta vai ser dividida entre nós. Não existe dinheiro público. Existe dinheiro da sociedade.