Preso nesta sexta-feira (8) na Operação Baest, o empresário da Serra Adilson Ferreira é suspeito de comandar uma organização criminosa para lavagem de dinheiro. Além dessa acusação, que o tornou réu com outras 13 pessoas, Ferreira também está envolvido em outra apuração, conduzida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), por suposta conexão com o desembargador Macário Júdice Neto em um caso de possível interferência em licitação no Espírito Santo.
A prisão preventiva de Adilson foi decretada no dia 27 de abril pela 2ª Vara Criminal de Vitória, na mesma decisão em que tornou réus 14 pessoas denunciadas pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES), no escopo da Operação Baest.
O empresário, que já foi condenado por tráfico de drogas, é apontado como líder de uma rede criminosa, estruturada para ocultar e lavar dinheiro de origens ilícitas, principalmente do tráfico e da agiotagem.
O grupo movimentava, segundo o órgão ministerial, recursos para áreas de fronteira, com o objetivo de comprar mais drogas e armas.
A defesa de Adilson afirma que foi surpreendida com o que considera uma "descabida" decretação da prisão preventiva.
A defesa também nega que Ferreira estivesse tentando fugir. Segundo Luz, o empresário da Serra estaria em Ponta Porã (MS), onde foi preso, em uma viagem a trabalho. O advogado adiantou que vai recorrer da decisão.
Os avanços das investigações demonstraram de forma inequívoca a ausência de participação com o tráfico e ainda assim teve a sua liberdade indevidamente suprimida
Douglas Luz Advogado de Adilson
Lavagem de dinheiro
As apurações sobre a suposta organização criminosa começaram em 2023. Os suspeitos recebiam uma grande quantia de dinheiro, pulverizavam em diversas contas menores e depois aglutinavam novamente o dinheiro numa conta destino, de acordo com a peça acusatória apresenta à Justiça.
O MPES aponta que Adilson teria "padrão de vida e movimentação financeira absolutamente incompatível com recursos lícitos conhecidos". A lavagem de dinheiro seria cometida por meio de "laranjas", com o uso de ao menos sete empresas sob seu controle, falsamente registradas em nomes de terceiros.
Os responsáveis pela investigação pontuam que a ilegalidade do dinheiro era disfarçada com a compra de imóveis e carros de luxo. Em nome das empresas, por exemplo, havia dois veículos da marca alemã Porsche (modelos Cayenne e Panamera), uma BMW XDrive, uma Mitsubishi Pajero Sport, um Jeep Outlander e uma Dodge Ram, entre outros carros.
A denúncia cita que que o empresário da Serra prestava serviços de lavagem de capitais para Tiago Cândido Viana (o "Baé"), preso em 2021. Ele é suspeito de ser integrante do Primeiro Comando de Vitória (PCV) e de fornecedor de drogas e armas para a facção.
Adilson foi denunciado pelos seguintes crimes:
- Organização Criminosa
- Lavagem de Capitais
- Falsidade Ideológica.
- Agiotagem
A prisão de Adilson nesta sexta é desdobramento da primeira fase de investigações que, em maio de 2025, resultou no cumprimento de mandados de busca e apreensão e bloqueio de mais de R$ 100 milhões em bens dos suspeitos. À época, Adilson chegou a ser detido na casa dele, em Jacaraípe, na Serra, mas acabou sendo liberado.
Após novas análises dos materiais apreendidos, o Ministério Público ofereceu denúncia contra 14 investigados em abril deste ano. A acusação foi acatada pela Justiça.
Atentado
Em março, Adilson foi alvo de um atentado em Jacaraípe, na Serra. A caminhonete Dodge Ram Rampage dirigida por ele foi atingida por quatro disparos na rua onde ele mora.
De acordo com o advogado Douglas Luz, o ataque foi praticado por dois homens que estariam encapuzados e passaram cerca de quatro horas rondando a região antes do crime, a bordo de um carro.
“A residência dele é em Jacaraípe e, ao entrar na rua de casa, foi abordado por duas pessoas, que neste momento estavam a pé, e que atingiram o veículo dele diversas vezes. Ele conseguiu desviar, não se feriu, mas os atiradores acabaram fugindo", contou o advogado, na ocasião do crime.
Operação Baest
A Operação Baest, conduzida pela Polícia Civil e na qual o empresário é investigado, é citada pela alta cúpula de segurança do Espírito Santo como uma das mais relevantes dos últimos anos.
A ação, que mira crimes de lavagem de dinheiro, organização criminosa e tráfico de drogas, já resultou na apreensão de R$ 100 milhões em bens e no indiciamento de 20 pessoas.
Apesar da denúncia apresentada pelo MPES contra 14 pessoas, as investigações do caso continuam. O próximo alvo são as pessoas envolvidas diretamente com o tráfico de drogas, principalmente as ligadas ao Primeiro Comando de Vitória (PCV).
Investigação no STJ
Adilson também é implicado em uma investigação sobre suposta rede de influências em licitação no Espírito Santo, conduzida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). O caso tem como alvo principal o desembargador capixaba Macário Júdice Neto (TRF-2), preso no Rio de Janeiro devido à suspeita de vazar informações sigilosas de operações policiais.
Segundo inquérito da Polícia Federal, Macário teria atuado para atender aos interesses de Adilson, dono da Unique Serviços e Transporte Ltda., que disputava um contrato estimado em R$ 10,5 milhões para fornecimento de climatizadores à Secretaria de Estado da Educação (Sedu).
Empréstimo de provas
Os diálogos com Macário foram extraídos do celular de Adilson, apreendido pela Polícia Civil na primeira fase da Operação Baest, em maio de 2025. Como Macário é desembargador e tem foro privilegiado, ele não é investigado pela Polícia Civel nem pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES).
As provas coletas pelas autoridades capixabas foram "emprestadas" à Polícia Federal no Rio de Janeiro para integrar a Operação Unha e Carne, que começou após o vazamento da Operação Zargun.
A principal linha de apuração se baseia em um suposto encontro do desembargador com o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, em um jantar em 2 de setembro de 2025, véspera da ação policial que levou à prisão o então deputado fluminense TH Joias. Este é suspeito de ser operador financeiro do Comando Vermelho.
Em março para A Gazeta, a defesa do desembargador negou o vazamento e diz que o caso é uma narrativa construída. A equipe de advogados afirmou, na ocasião, haver erros concretos nas apurações que culminaram na denúncia de seu cliente ao Supremo Tribunal Federal (STF). Vinculado ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), Macário está preso desde dezembro do ano passado e teve pedidos de soltura negados pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do caso.