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Política

A democracia está no divã, vivendo uma crise existencial

Na prática, é permanente o processo de democratização da democracia. Há uma grande decepção com o seu funcionamento, transformada em polarização. É fruto de um problema de representatividade

Públicado em 

29 ago 2020 às 05:00
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

Manifestante com cartaz sobre democracia no Brasil, durante ato no Largo da Batata, em São Paulo, neste domingo (7)
Manifestante com cartaz sobre democracia no Brasil Crédito: Alice Vergueiro/Folhapress
A democracia está no divã. Há retrocessos democráticos. Mas esta crise existencial tem um componente de percepção idealizada da democracia, como nos livros de moral e cívica. A democracia é confusa e instável por sua própria natureza. Lembremos Churchill: “a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas”. A essência da democracia é o dissenso. Para, com liberdade, proteger as pessoas das violências da anarquia e/ou da tirania.
Apesar da “recessão democrática” no mundo, apontada por Larry Diamond, o fato é que os regimes autoritários são minoritários. Em 2019, representavam 35,6% da população mundial, incluindo a China. Desde o século XIX, tivemos ondas democráticas no mundo: 29 países em 1922; 36 em 1962; 87 em 2009; 76 em 2019. Ciclos de retrocessos e avanços: o equilíbrio instável das democracias.
Na prática, é permanente o processo de democratização da democracia. Há uma grande decepção com o seu funcionamento, transformada em polarização. É fruto de um problema de representatividade, irmão siamês de mudanças estruturais de “zeitgeist” (espírito de época) e de modificações nos eixos de conflitos e clivagens. Agora, a adição das clivagens identitárias de religiões, gêneros e raças tornou muito mais complexo o processo político de agregação de interesses e formação de consensos.
No Brasil, o problema central também é de representação e de formação de consensos. O calcanhar de Aquiles continua sendo o problema da formação de maiorias estáveis de governo. O nó górdio está nos partidos oligárquicos e na fragmentação partidária do sistema eleitoral. Conjugados com um sistema presidencialista esquizofrênico.
Entretanto, o sistema de freios e contrapesos funciona. A Nação consolidou uma sólida democracia de massas, com o terceiro maior eleitorado do mundo e alternância de poder. Tem participação política e competição política institucionalizada, dois dos três pilares da democracia. Falta o da representação.
Na representação está o foco do problema, como no mundo. Os eixos de conflitos ficaram ainda mais complexos e são focos de polarização e dificuldade de formação de consensos. Assim como nos Estados Unidos, temos aqui um problema grave de corrosão da tolerância e do respeito institucional das lideranças às regras institucionais formais e informais. Mas a democracia está viva. A Nação. “We the people”, como estimulou Obama. Volto ao tema.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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