O presidente Bolsonaro é apenas a vitrine da ampliação do imaginário conservador brasileiro. De 2013 para cá, este imaginário, digamos, saiu do armário. Desde 2014, Bolsonaro captou um novo espírito de época e iniciou um efetivo trabalho de dialogar com esse zeitgeist através das redes sociais. Percebeu a ascensão das pautas culturais e conservadoras nas razões de votos dos brasileiros, para além das pautas econômicas, antes os carros chefes nas eleições. Concluiu: agora, é o zeitgeist, estúpido!
As pesquisas mostram que o país está dividido ao meio. Mas o presidente, mesmo com todas as crises e desgastes, mantém regular avaliação e expectativas positivas. Com as nuvens políticas de hoje, a não ser que surja no horizonte a abertura de um improvável processo político de impeachment com o apoio das ruas, ele estaria no segundo turno das eleições de 2022. Com força para vencer. Lula é inelegível e Sérgio Moro diminuiu de tamanho político.
Intuitivo como Lula já foi mais, Bolsonaro percebeu que é hora de moderar o discurso. Fez isso e aproximou-se do Congresso. Embora o chamado Centrão tenha desidratado de 221 para prováveis 136 votos, o governo abriu diálogo e conta agora com operadores políticos que entendem do riscado, como o novo ministro Fábio Faria (PSD). No Congresso, a oposição não consegue ter unidade e visão estratégica. Além disso, Bolsonaro cuida de outros pilares do seu governo.
Vale enumerar os principais. O agronegócio, que representa mais de 40% das exportações brasileiras e ajuda a conter a queda do PIB, está majoritariamente com ele. Inclui uma complexa cadeia produtiva e emprega milhares de brasileiros. Os evangélicos, que crescem cada vez mais num país conservador como o Brasil, fortalecem os seus elos com as pautas de costumes e a valorização da família e da religião na vida das pessoas. E os militares e policiais militares, que representam perto de 1,4 milhão de pessoas, estão também alinhados com o capitão. Sem falar no auxílio emergencial — e seu eventual sucedâneo —, que trouxe os mais pobres mais para perto dele.
São alianças com base em valores. O novo zeitgeist. Família, segurança, ordem, corrupção, desprezo pelos políticos. Ricardo Capelli é cirúrgico: “Imbatível? Claro que não. Mas é bom ficar atento. Desde que a reeleição foi aprovada, todos os presidentes foram reeleitos. Se a oposição não se organizar para entrar em campo, pode dar W.O.”.