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Política

Os fantasmas da demonização da política continuam vivos no Brasil

Aqui no Brasil é preciso que os mais jovens ampliem a participação política nos movimentos cívicos e nos espaços associativos, para oxigenar os partidos e fortalecer as formas de democracia representativa e democracia direta

Públicado em 

22 ago 2020 às 05:00
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

Jair Bolsonaro em solenidade alusiva à partida da comitiva brasileira em Missão Especial a Beirute
Jair Bolsonaro: presidente registrou melhoria em sua aprovação, segundo pesquisa recente Crédito: Alan Santos/PR
A melhoria da aprovação do presidente Bolsonaro e a baixa aprovação do Congresso Nacional reavivaram no imaginário nacional os fantasmas da demonização da política. Não é novidade. O fenômeno é conhecido. Um desprezo pela classe política, um ressentimento e uma indignação crescentes. O nosso problema é achar que é mais uma jabuticaba brasileira. Mas não é. Atualmente, perto de dois terços dos habitantes do planeta pensam a mesma coisa.
Onde está a novidade? Na verdade, não está. Desde sempre, para muitos, a política do poder e dos interesses é vista como um pântano. Este dilema em torno da utilidade da política e das formas de viver em sociedade atravessou séculos e permanece. Desde o pensamento político antigo, de Confúcio, Platão e Aristóteles. Eis o eterno dilema: como combinar a política do poder, dos interesses e da conquista de mais poder, com a política da justiça, do império da lei e da legitimidade. Um dilema, vamos combinar, da própria natureza da vida em sociedade. Nem a inteligência artificial poderá resolver...
Ao fim e ao cabo, o pensamento político e a prática política concluíram, até agora, que a política é a interseção do poder e da justiça: o poder que é justificado e a justiça que é empoderada. “Idealistas” pensam que a política é só focada em justiça. E os mais “cínicos” julgam que a política é só focada no poder. Na história do pensamento político, há um consenso da interseção da justiça e do poder. Maquiavel, Hobbes, Nietzsche e Mao, por exemplo, enfatizaram a dimensão do poder. Outros, como Platão, Locke, Rousseau, Mill, e Rawls, enfatizaram a dimensão da justiça. A ideia de um movimento pendular entre mais autoritarismo e/ou mais democracia prevalece.
Hoje, o desafio continua e a arte de viver em sociedade está cada vez mais complexa. A comunicação instantânea no ciberespaço da internet e das redes sociais produz narrativas contraditórias que estimulam a polarização, estiolam o pensamento e dificultam a formação de consensos. As ordens imaginadas e visões de mundo se renovam com muita rapidez. Isto estimula a movimentação do pêndulo da política. Tempo de incertezas e desilusões políticas.
Aqui no Brasil é preciso que os mais jovens ampliem a participação política nos movimentos cívicos e nos espaços associativos, para oxigenar os partidos e fortalecer as formas de democracia representativa e democracia direta. Lutar, por exemplo, por mudanças no sistema eleitoral e no sistema partidário. Nosso sistema político é fonte de crise e ingovernabilidade.
Não basta só vaiar da arquibancada. Bom lembrar Platão: “não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam”. Vamos pela via da política? Ainda não inventamos melhor forma de convivência em sociedade.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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